A conversa entre Cristovam e Roriz

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Texto de Rudolfo Lago

Quando era assessor de Cristovam Buarque, tive o privilégio de assistir a um momento incrível de como se dão as relações políticas. Fui testemunha de uma conversa reservada de Cristovam com Joaquim Roriz, durante um jantar. 

Roriz já não era governador, mas ainda não apresentava os problemas de saúde que acabaram levando à sua morte nesta madrugada. Pensava em uma volta. E, por incrível que possa parecer, imaginava nessa volta fazer uma composição com aquele que fora seu maior adversário, numa briga que dividiria por muito tempo Brasília entre azuis e vermelhos. Com a ajuda de um pastor da cidade, do qual não me recordo o nome, fez a aproximação.

Esse pastor tinha acabado de fazer o curso de gastronomia do Iesb e queria unir uma apresentação dos seus dotes culinários a essa aproximação política. Promoveu o jantar em uma confortável cobertura de um prédio da Asa Norte onde morava. Cristovam não queria ir sozinho ao jantar. Então, me puxou como testemunha. Não eram muitas pessoas presentes, mas não me lembro mais exatamente quem estava, além de mim, Cristovam e Roriz. Estava pela menos uma das suas filhas, Jaqueline ou Liliane. E acho que estava também Celina Leão. 

A primeira coisa que transpareceu da conversa foi o português correto de Roriz o tempo todo. Carregado, sim, com um forte sotaque goiano, mas correto. Ficava claro que os erros em seus discursos faziam parte da composição de um personagem. O Roriz de verdade não era assim.

Na conversa, a principal bandeira que Roriz defendia era uma ampliação do Distrito Federal criando um Estado do Planalto. Ele tinha de cabeça e explicava com detalhes as demarcações feitas pela Missão Cruls para delimitar a área do novo território. Falava que a criação desse novo estado era fundamental porque as áreas do entorno ficavam abandonadas, relegadas tanto pelo governo de Goiás quanto pelo DF. 

Ao final, Cristovam, muito gentilmente, disse a Roriz que tal aproximação era muito difícil para ele. Jamais seria entendida por seus eleitores. Agora, caso houvesse alguma convergência de pensamento em futuras defesas e posicionamentos, Cristovam, da forma independente como sempre agiu, poderia apoiar. Roriz compreendeu.

Nem em um segundo da conversa transpareceu algo que lembrasse a disputa política renhida entre azuis e vermelhos. Foi uma conversa absolutamente cordial em todos os momentos.

Hoje, vendo no que o debate político se transformou, só o que penso é como somos tolos. Políticos conversam. Até porque isso é a essência da natureza da política. Enquanto isso, os militantes, seus admiradores, se estapeiam…

(Rudolfo Lago é jornalista em Brasília e passou por redações de grandes jornais e revistas)

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