Mesmo após três anos de crise política e econômica, um impeachment e sucessivas denúncias de corrupção, boa parte das velhas forças políticas do país iniciou 2018 apostando que o ano seguiria um roteiro minimamente previsível.
A suposição era de que, apesar do turbilhão, o jogo político seria mais uma vez dominado pelos mesmos atores. Até mesmo vários analistas previram que a renovação do Congresso seria baixa, que recursos e tempo de TV seriam mais uma vez decisivos e que a disputa seguiria uma polarização que já havia sido trilhada em eleições anteriores.
Em um ano marcado por eventos extremos, as circunstâncias atropelaram essas certezas. Ao longo do caminho figuras influentes que pareciam imbatíveis foram derrotadas, partidos outrora gigantes praticamente desmoronaram, e uma nova força radical que havia sido subestimada mudou a lógica das disputas eleitorais e se sagrou como a grande vencedora.
Ao mesmo tempo, posições políticas extremas que eram consideradas marginais nos últimos anos passaram para o palco principal do debate público.
A vitória de Bolsonaro e de outras forças novatas não apenas arrasou o velho establishment político, mas também abriu um novo ciclo político de incerteza e de expectativa.
O presidente eleito já demonstrou que pretende acabar com velhos arranjos políticos na relação do Executivo com o Congresso. Em vez de procurar o apoio de caciques partidários, passou a dar preferência a um relacionamento com bancadas temáticas, como a da agropecuária e dos evangélicos. Velhos líderes do Congresso levantam dúvidas se esse método será bem-sucedido. Também pesa a inexperiência de Bolsonaro em negociações. Ainda pesa a fragmentação da Câmara e do Senado após as eleições, a maior da história.
O PT, que governou o país por 13 anos, iniciou 2018 apostando que o popular ex-presidente Lula da Silva seria viável como candidato presidenciável. Os números eram um incentivo irresistível: o petista aparecia com 37% das intenções de voto em janeiro. A liderança petista preferiu minimizar os problemas jurídicos do ex-presidente – que já levantavam dúvidas sobre a viabilidade da sua candidatura – e a imagem arranhada do partido por causa de repetidos episódios de corrupção.
Lula acabou sendo o personagem principal do primeiro evento-chave que chacoalhou a campanha presidencial: sua condenação em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, que em janeiro virtualmente o tirou do páreo por causa da Ficha Limpa. A condenação culminou em abril na dramática prisão do petista, que por dois dias resistiu em se entregar. Ele acabou se tornando o primeiro ex-presidente da história do Brasil preso após condenação judicial.
Já o PSDB, que governou o país por oito anos e havia disputado todos os segundos turnos presidenciais desde 2002, mais uma vez apostou em um veterano: Geraldo Alckmin. Mesmo que as pesquisas não indicassem números promissores na largada, o candidato era encarado como a figura principal de um “centro” político brasileiro capaz de se contrapor ao petismo e à cada vez mais influente extrema direita.
Alckmin ainda reuniu o maior tempo de TV e recursos de campanha ao atrair uma série de legendas fisiológicas. Dinheiro e TV ainda pareciam armas imbatíveis em uma disputa. Ao mesmo tempo, os tucanos também subestimaram seus próprios arranhões causados pela corrupção.
O MDB do presidente Michel Temer, por sua vez, havia participado dos arranjos que desenharam no Congresso um superfundo de campanhas que seria dividido em sua maioria pelos petistas, tucanos e emedebistas. Também apostou que o dinheiro e a TV seriam capazes de garantir a sobrevivência dos seus caciques políticos, muitos deles atingidos por escândalos.
Já no Judiciário, a novela da situação de Lula ainda deve render novos episódios. A continuidade da prisão do ex-presidente gerou em 2018 uma guerra de liminares entre juízes federais que arranhou a imagem do Judiciário. No último dia antes do recesso, o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello ainda concedeu uma liminar que abria a possibilidade para soltar Lula e outros condenados em segunda instância. A decisão foi derrubada por outra liminar, mas demonstrou como o tema ainda deve estar presente em 2019. Em abril, o STF deve voltar a analisar a legitimidade das prisões em segunda instância.


