A milícia na fronteira

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Quando o sol se põe, atrás das colinas no final da cerca fronteiriça de Sunland Park, no Novo México, o dia começa para eles. Com camiseta de camuflagem bege, Jim Benvie se encosta a uma picape preta com vidros escurecidos, giroflex laranja e fuzil de assalto no banco do passageiro.

Ao volante está “Chin”, que na realidade tem outro nome e esconde o rosto sob uma máscara. Apenas seu olhar severo pode ser visto. Sua AR-15 é semiautomática, tem 30 balas no cartucho e, graças às leis de porte aberto de armas no estado do Novo México, pode ser exibida abertamente por qualquer um. São homens como Chin e Benvie os primeiros a ver muitos migrantes quando eles pisam em solo americano.

Porque aqui, no final da cerca, eles são os autoproclamados guardas da fronteira. A milícia armada, com cerca de 30 membros ativos, faz patrulha, prende migrantes e os entrega à polícia fronteiriça – eles se autodenominam Guardian Patriots (patriotas guardiões).

Chin, ele próprio filho de um imigrante ilegal do México, agora quer garantir que os novos migrantes permaneçam do lado de fora. “No final, o contribuinte americano tem que pagar pelos migrantes”, diz ele. O que ele fala é algo ouvido frequentemente dos integrantes da milícia: “Por que eles deveriam receber tudo de graça, se não recebemos nada de presente na vida?”

O grupo inclui veteranos do Exército. Alguns, como Jim Benvie, estão desempregados. Chin e seu colega Ghost trabalham como ajudantes em uma fábrica de móveis. “Concierge” afirma ser um advogado aposentado, mas também diz ter desempenhado “todos os tipos de outros empregos”.

A milícia é financiada por doações de uma comunidade online que recebe diariamente vídeos ao vivo da fronteira fornecidos por Jim Benvie, trazendo “a verdade que a mídia fake news nunca vai mostrar”, segundo ele.

“Coiotes” desempenham um papel nessa “verdade”. É assim que são chamados os traficantes de pessoas que levam migrantes, prostitutas e drogas para os EUA e que já teriam atirado pedras nos membros da milícia. “Aqui é perigoso”, diz Benvie, afirmando que eles precisam de suas armas apenas para dissuasão e autodefesa contra “coiotes” e membros de gangues do Cartel de Juárez, no México, do outro lado da cerca.

Milhares de migrantes – “A guarda de fronteira precisa de nós”, diz Benvie, o único do grupo que usa seu nome verdadeiro, mostra seu rosto e fala algo que até os oficiais de patrulha de fronteira dos EUA não negam: por causa da grande quantidade de migrantes, não há forças operacionais suficientes para monitorar a fronteira completa e permanentemente.

Só em abril, mais de 100 mil pessoas sem documentos cruzaram a fronteira do México para os Estados Unidos. Jim Benvie coloca da seguinte forma: “A fronteira está aberta”, diz ele. “Para os imigrantes, é como um cheque em branco”, avalia, acrescentando ser esse o motivo pelo qual seu grupo está em atividade.

Uma das milícias mais notórias do país – Os Guardian Patriots querem ser um grupo inofensivo de vigilantes, dizem ser voluntários e não gostam de ser chamados de milícia. Mas organizações de direitos humanos e o prefeito de Sunland Park veem isso de forma diferente.

Até algumas semanas atrás, os homens pertenciam aos United Constitutional Patriots, uma das milícias mais notórias dos Estados Unidos. Eles tinham instalado sua sede em uma propriedade da Union Pacific Railroad, chamada Camp Liberty, perto da fronteira – ali, por onde o presidente americano, Donald Trump, alega que passam todos os dias assassinos, estupradores e outros criminosos rumo aos Estados Unidos.

Família de migrantes latino-americanos ajoelhada em cena noturna

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Border Network for Human Rights (rede fronteiriça para os direitos humanos) de El Paso, estão chocadas com a atuação das milícias. “Especialmente famílias passam através da fronteira, fugindo da violência de gangues e que se entregam voluntariamente aos guardas de fronteira”, diz o presidente da ONG, Fernando García. “Por que precisamos de civis armados?” (Da DW)

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