Nascer na Capital Federal é se ser brasiliense e candango. E cada uma dessas palavras tem uma força narrativa muito diferente, peculiaridades e caminhos sinuosos.
Candango teve origem, segundo o dicionário Aurélio, na expressão Kungundu, diminutivo de kingundu, do Quimbundo, com o significado de ruim, ordinário e vilão. E era o termo antigo e depreciativo usado pelos africanos para falar sobre os portugueses dedicados ao tráfico negreiro.
Artigo – 21 de abril de 2020 – #COMPARTILHE o Misto Brasília
É, também, o nome dado ao biscoito africano de fácil preparo que tem em sua receita amendoim cru, ovos e fermento com pitadas de canela em pó. E tipo de carro 4×4 brasileiro da Vemag (sob licença da fábrica alemã DKW) produzido entre os 1958 e 63.
Provavelmente, o termo candango chegou a Brasília na construção da cidade (1956-60) trazido pelos operários vindos do nordeste e de origem africana. No livro Construtores de Brasília de Nair H. B. Souza, o pedreiro João, da época da construção da capital, contou que Juscelino Kubitschek usava a palavra candango para falar dos operários.
Por entender a natureza dos brasileiros, o presidente JK usava a mesma forma como os trabalhadores se chamavam, Candangos, porque sabia que eles não gostavam de serem tratados por “piões”.
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Com o tempo, candango deixou de ser a designação dos trabalhadores vindos do interior em busca de emprego nas áreas mais desenvolvidas do país. E, sob influência de JK, ter uma conotação mais enaltecedora de brasileiros aguerridos, fortes e trabalhadores.
Um exemplo da transformação do conceito é o monumento de Bruno Giorgi. A obra que fica na Praça dos Três Poderes e sofreu mudança em seu nome com o tempo. Ela passou do título Os Guerreiros e para Os Candangos.
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Já a palavra brasiliense é ligada ao nome Brasil. E carrega o significado de uma cidade de todos o brasileiros. Por tanto, a origem do conceito dessa naturalidade de quem nasceu na Capital Federal está ligada à madeira Caesalpinia echinata, pau-brasil. Por isso, Brasília tem a força da cor da brasa ardente.
Porém, há mais significados nessa palavra. Segundo o filólogo Adelino Azevedo, o nome Brasil é de origem celta: Hy Brasil, lenda sobre uma ilha de delícias e admirada entre as nuvens. A lenda está ligada ao comércio de cinábrio (sulfureto de mercúrio), mineral de cor vermelha brilhante usada como corante, entre os celtas e os fenícios, no século VI a.C. O mineral avermelhado (brazil) chegava nas mãos de mercadoress vindos por mar de terras distantes e maravilhosas.
Hoje, candango e brasiliense marcam conceitos de grande família, de ideologia e de orgulho. Elas carregam o lado mítico da Brasília descrita no sonho Dom Bosco: “aparecerá aqui a Grande Civilização, terra prometida, onde correrá leite e mel”. Apesar de percorreram caminhos distintos, elas representam o perfil de cerca 3 milhões de mulheres e homens fortes e trabalhadores. As duas expressões se tornaram conceitos de homogeneidade para tentar diminuir as distinções sociais e estabelecer a consolidação de naturalidade do sonho mítico de Brasília.
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