A classe média sempre se recusou a reconhecer os direitos e garantias do trabalho doméstico
Texto de André César e Vinício Carrilho Martinez
Todos os mitos revelaram o que são, nesse país, ou seja, apenas Micos. Nada menos, nada mais.
A xenofobia atual expressa a “recepção” dos imigrantes do início do XX: comparados aos escravos “libertos”, o senhorio da Casa Grande lhes cobrava o mesmo ritmo de trabalho havido na Senzala.
No Brasil “independente e do trabalho livre” sempre se cultuou e praticou o “trabalho análogo à escravidão”.
A classe média, por exemplo, sempre se recusou a reconhecer os direitos e garantias do trabalho doméstico.
O país que sempre foi binário (rico X pobre, linchamentos de negros, “crimes de honra”, Revolta da Vacina, boçalidades e que tais), hoje também revela todo seu potencial e arsenal de nação analógica: desindustrialização, importação de manufaturados, retorno do sistema de plantation, etc.
Na “badalada” Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o assassinato a pauladas do jovem congolês Moïse Kabamgabe (24 anos), e amarrado numa escada, simbolizando um Pelourinho pós moderno, por cobrar uma dívida trabalhista de 200 reais, infelizmente, apenas reflete e atualiza a cultura pautada pelo ódio de classes.
Não dá pra ver de maneira diferente essa hospitalidade nacional, além do Mico Nacional.
Os 50 mil mortos violentamente todos os anos, na série histórica até 2019, somente confirmam a massa bruta nacional, e de quantos paus e pedras são feitos nossos mitos.
Se você chegou até aqui, por favor, nunca mais diga que somos um povo pacífico, cordial, hospitaleiro. A rigor, essa ideia é, e sempre foi, uma fraude.
Não podemos mais afrontar o óbvio, a violência da Casa Grande (branca), mentindo para nós mesmos quando aceitamos a ideologia pacífica da chibata. Chega de autoenganação.
(Vinício Carrilho Martinez é, cientista social e professor da Universidade Federal de São Carlos, e André Pereira César é cientista político)


