Escritor Paulo Mendes Campos teve dificuldades em explicar para os estrangeiros o “jeitinho brasileiro”
Texto de André César
Vivemos dias terríveis, de tristeza indizível. Pandemia, miséria, polarização política extrema, crise climática, guerra. Para tentar amenizar o ambiente ao menos nessa terça-feira de Carnaval, falarei sobre um livro seminal.
“O mais estranho dos países”, de Paulo Mendes Campos, realiza uma panorâmica sobre a obra do cronista mineiro, um dos maiores do século XX. São artigos publicados entre as décadas de 50 e 80 em diferentes órgãos da imprensa. Impressiona a atualidade do trabalho.
O autor aborda, em diferentes momentos, o Brasil, seus problemas e contradições. Fala sobre a ausência de reformas, a desigualdade social e os comportamentos de diversos grupos, de políticos a profissionais liberais, passando por celebridades e servidores públicos. Às vezes, fica-se com a impressão de que escreve em pleno 2022.
Em uma crônica específica, ele trata do “jeitinho brasileiro” e da dificuldade de explicar esse fenômeno para um estrangeiro. Claro que o assunto é tratado com leveza e humor, em um texto saborosíssimo.
PMC também viveu a história. Ele testemunhou a inauguração de Brasília, em abril de 1960, e fala do estranhamento e do encantamento que a nova capital passava a todos. Outra crônica brilhante.
O mineiro conviveu com uma geração de ouro da cultura brasileira – nomes como Rubem Braga, Millôr Fernandes, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros, foram íntimos de PMC e o livro contém diversas histórias com essas personagens.
Em minha opinião, a melhor crônica é “Copacabana-Ipanemaleblon”, na qual trata, com humor e certa nostalgia, da rivalidade entre os bairros mais charmosos da zona sul do Rio de Janeiro. Texto impagável e imperdível.
Por coincidência, li o livro na segunda-feira de Carnaval, 28 de fevereiro, dia em que PMC celebraria 100 anos de idade – eu não sabia desse fato até iniciar a leitura. Interessante e triste notar que a data foi ignorada pelos cadernos de cultura dos grandes jornais. O Brasil e sua crônica falta de memória.
Então, viva PMC e sua obra única e genial!


















