Atentado na Argentina acende luz amarela na América Latina

Lula da Silva e Jair Bolsonaro Misto Brasília
A bipolarização política continua estimulada por Lula da Silva e Bolsonaro/Arquivo
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No Brasil, o embate político coloca os políticos como alvo principal, advertem especialistas

A tentativa de assassinato da vice-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, reascendeu um debate sobre a violência política na América Latina. Para analistas, há um paralelo direto do episódio com o cenário brasileiro, de embate eleitoral entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL).



Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que atentado não deve ser visto como um caso isolado e faz parte de um processo de acirramento de ânimos que tem afetado a região. O processo eleitoral brasileiro de 2022, inclusive, pode ter ajudado na aumento das tensões sentida no país vizinho nas últimas semanas.

O clima de hostilidade na eleição brasileira deste ano já é evidente, com alguns candidatos sendo vítimas de ameaças até mesmo com arma de fogo. Um desses alvos foi o advogado Rodrigo Mondego, que integra a comissão de direitos humanos da seção do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e que concorre a deputado estadual pelo PT.



Mondego teve uma arma apontada para sua cabeça ao sair do comitê de campanha do candidato a governador Marcelo Freixo (PSB). Um homem — identificado como o policial penal aposentado Marcelo Rocha de Miranda —disse para Mondego “ficar ligado” e o chamou de “defensor de bandido petista”. O caso corre na Justiça.

Para a socióloga Giovanna Zucatto, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Teoria Social e América Latina (NETSAL) e do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a violência que nunca deixou de existir na América Latina — em especial em países como Colômbia, México —, agora foi para o front a partir de um entendimento das elites de que a forma de evitar que as lideranças populares tenham poder é através da violência.



Violência e a política no Brasil

“O fato novo, portanto, é essa violência ir para o front da política, com os grandes partidos alimentando-a em razão de um entendimento de que as lideranças políticas populares só vão ser impedidas através da violência. E isso é um fato que me parece que vai demorar muito para ser contornado”, avalia a pesquisadora do OPSA.

“A gente pode localizar o início disso em 2012, com o golpe que tirou o [ex-presidente Fernando] Lugo no Paraguai, passando por 2016 com a crescente de violência contra [a ex-presidente] Dilma [Rousseff], alvo de extrema misoginia”, avalia.



A pesquisadora acredita que há nas conjunturas políticas de Brasil e Argentina uma grande aproximação, diante de uma radicalização de setores da direita e uma perseguição jurídico-política contra lideranças populares nesses países. Isso permitiu uma escalada de violência de uma forma nova em dois países que, segundo ela, a tradição política pós-redemocratização não envolvia confrontos físicos tão evidentes.

“Isso é um fato alarmante que está muito ligado com a radicalização da direita. Há partidos grandes alimentando essa violência em conluio com a mídia e com o Judiciário”, disse Zucatto.

A especialista acredita, inclusive, que o bom desempenho de Lula da Silva (PT) nas pesquisas eleitorais brasileiras fez com que os setores anti-kirchneristas adotassem uma estratégia mais radical para tentar impedir que aconteça o mesmo. A ideia, para Zucatto, é a de aniquilar a ex-presidente. Isso, segundo ela, se expressa no atentado de quinta-feira (1º) e na denúncia apresentada pelo Ministério Público que pede a cassação eterna dos direitos políticos da vice-presidente.



Risco de nível alto para Lula da Silva

O atentado contra Kirchner torna-se ainda mais alarmante no Brasil, em especial para Lula, que já foi colocado no nível de risco mais alto pela Polícia Federal (PF). Para o policial civil Leonel Radde, integrante do do movimento Policiais Antifascistas, “o atentado deve ser considerado um alerta”. “Aqui no Brasil o tempo todo há uma instigação para esse tipo de violência”, afirmou.

“Eu não tenho dúvidas que há um risco real para Lula, mas não só para ele”, aponta Radde.



Essa tensão é sentida também na campanha do ex-presidente Lula da Silva. Segundo o jornal O Globo, a segurança do candidato foi reforçada no ato de sexta-feira (2) no Maranhão. Integrantes da cúpula da campanha já admitiram preocupação com o atentado sofrido por Cristina Kirchner. “Causou preocupação, sim, foi conversado na campanha.

O ex-presidente tem um esquema muito organizado de segurança, tanto da Polícia Federal e também o sistema dele, que vão analisar a situação”, disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), um dos subcordenadores da campanha de Lula da Silva, à agência Reuters.



Os casos que já foram registrados

A tentativa de assassinato de Kirchner por um neonazista, a onda de violência desencadeada pelo golpe que abalou a Bolívia em 2019, a tentativa de assassinato do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o magnicídio do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, o aumento das mortes de lideranças sociais na Colômbia e no México, a morte da vereadora Marielle Franco em 2018 no Rio de Janeiro, a facada contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha eleitoral de 2018, o assassinato de um dirigente do PT por opositor político em festa de aniversário e a necessidade de reforço na segurança do ex-presidente Lula da Silva (PT) na campanha de 2022 por determinação da Justiça Eleitoral são apenas alguns exemplos dessa onda de violência que abala o subcontinente.

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