Segue o segundo artigo que faz uma relação entre a sétima arte e o momento político de cada época
Por André César – SP
Abordamos, na semana passada, a relação entre cinema e política, listando algumas obras que consideramos fundamentais nessa seara. Hoje, damos sequência ao trabalho, apresentando filmes que, em nossa opinião, também se enquadram na categoria “obra prima”.
Começamos com o recém-lançado “Argentina, 1985” (2022), de Santiago Mitre. A película, disponível em streaming, já pode ser considerada um clássico. Conta a história (verídica) do julgamento da Junta Militar que governou, com mão de ferro, a Argentina entre os anos setenta e oitenta. Pesado, aborda sem medo a brutalidade do regime ditatorial. Destaque para a atuação de Ricardo Darin (sempre ele) no papel do promotor Julio Strassera, um dos responsáveis pela condenação dos militares. Filmaço obrigatório.
“Underground” (1995), do sérvio Emir Kusturica, conta a história, como fábula, do conflito na antiga Iugoslávia, a partir da Segunda Guerra Mundial. Anos de chumbo sob o comando do Marechal Tito. Recebeu a Palma de Ouro em Cannes.
Em “Paradise now” (2005), do palestino Hany Abu-Assad, a questão do confronto arábe-judeu é o foco. Dois amigos são recrutados para realizar um atentado em Tel Aviv, Israel. Tudo dá errado e, separados, passam a questionar suas ideologias e convicções. Filme forte que merece ser assistido com atenção.
“Tiros em Columbine” (2002), do polêmico Michael Moore, trata de um assunto incômodo, em especial para os norte-americanos – o fascínio pelas armas de fogo e os constantes massacres em escolas e outros locais públicos. A partir da tragédia ocorrida em uma cidade do interior do Colorado, onde dois alunos mataram diversos colegas a tiros, a cultura bélica do país é dissecada. Perturbador, mas essencial.
O genial diretor grego Costa-Gravas também não pode ficar de fora da lista. “Z” (1969), “Estado de sítio” (1972) e “Missing” (1982) são trabalhos definitivos, três verdadeiras aulas de cinema e de história, thrillers que empolgam e fazem pensar.
Igualmente gênio, o diretor soviético Sergei Einsestein tem ao menos duas obras no panteão do cinema político, “O Encouraçado Potemkin” (1925), sobre a rebelião da tripulação de um navio de guerra em meio à Revolução Russa de 1905 (a cena do carrinho de bebê na escadaria é antológica), e “Outubro” (1927), que aborda os eventos de 1917, quando o regime czarista foi retirado do poder. Fundamental.
Entre outras maravilhas, o polonês Andrzej Wajda dirigiu “Danton – o processo da revolução” (1983). Em 1793, quando o Terror tem início na França, Georges Danton (Gerard Depardieu, soberbo no papel) retorna para enfrentar Robespierre. Como diz o velho chavão/clichê, o resto é história.
“Recontagem” (2008), é um filme para a televisão dirigido por Jay Roach. Com um elenco estelar – Kevin Spacey, Laura Dern, John Hurt, Tom Wilkinson – trata do polêmico processo eleitoral do ano 2000 nos Estados Unidos da América, quando ocorreu um imbróglio jurídico na Flórida que resultou na vitória de George W. Bush. Em tempos de ataques ao TSE e às urnas eletrônicas, vale muito ser visto.
Clássico da comédia italiana, “O incrível Exército Brancaleone” (1966), de Mario Monicelli, apresenta um grupo de desajustados liderado por um cavalheiro incompetentemente chamado Brancaleone da Norcia (Vittorio Gassman) que busca se apossar de um feudo. Filme atemporal.
Obra de fôlego, com mais de nove horas de duração, “Notícias da antiguidade ideológica: Marx, Eisenstein, O Capital” (2008), do documentarista Alexander Kluge, retoma o projeto de Sergei Eisenstein de filmar O Capital, de Karl Marx, a partir da estrutura do clássico Ulisses, de James Joyce. Complicado, não? Um filme difícil, para poucos iniciados – e com paciência e tempo de sobra.
Por fim, mais uma vez citando o cinema brasileiro, “Eles não usam black-tie” (1981), de Leon Hirszmann, que conta a história de uma greve de operários em São Paulo tendo como pano de fundo o drama de um casal, e “Pra frente, Brasil” (1982), de Roberto Farias, sobre a tortura praticada pelo regime militar nos anos mais duros da ditadura, são obras que mostram um país nu e cru.
A segunda parte da lista continua a representar um simples esboço e está longe, muito longe, de ser definitiva. Qual filme foi “esquecido” por esse humilde escriba?























