A simbologia dos mais antigos tem o que perdemos faz tempo: prudência e senso do ridículo
Por Vinício Carrilho Martinez e André César
Nossos bisavós, seja qual for sua idade, diziam coisas óbvias, mas que eram lições, pérolas da vida.
– menino, não põe o dedo na tomada.
– rapaz, como é que enfiou a mão nessa cumbuca (utensílio usado para aprisionar macacos curiosos).
– tem jeito não, ninguém desentorta banana.
– você ainda acredita que alguém venda bilhete premiado? (Que “bilete” é esse…!!??).
E a mais notória, o clássico do óbvio ululante (esse cara foi alguém como Nelson Rodrigues), qual é?
Um escritor zoado só contaria pra você, no final do texto, ia te “cozinhar em banho maria” (a Tia Maria não merece isso), ou seja, ia te enrolar um pouco ou bastante, e só depois traria o fim da história.
Neste caso, já elevado a ícone ou meme da piada pronta, te contaria uma coisa muito simples: “Olhe bem com quem anda”. Ótimo.
E outra, essa genial: “estude muito antes de dar bom dia a alguém”. Conheça intuitivamente a quem não dar “oi”, “bom dia” etc.
Sabe por que? Porque pode ser um manequim que seu afã de simpatia não percebeu que era, exatamente, um manequim.
É óbvio isso? Claro. Porém, quem anda na rua vendo a beleza das borboletas pode não se tocar. A pessoa, inclusive, pode dizer “ops, foi mau”.
Foi mau pra ela, né?
Óbvio.
No entanto, você ainda perguntaria: o que isso tem a ver?
Tudo. Porque, nossos antigos também diziam assim: “não dê bom dia a cavalo“.
Isso pode ser questionado? Pode e deve.
A gente fala com cachorro, gato. Alguns dão bom dia para suas plantas. Isso é muito salutar, as plantas e os animais nos humanizam.
Mas, a simbologia dos mais antigos tem o que perdemos faz tempo: prudência e senso do ridículo (vergonha de pensar em passar vergonha).
Queres um exemplo?
Se é óbvio que não devemos dar bom dia a cavalos (até porque o prêmio pode ser um coice – quase sempre é), é ainda mais óbvio que, um ministro de Estado não pode passar um Ano Legislativo inteiro para propor um único projeto de lei (era parlamentar…).
E qual foi o projeto? Exatamente, criar o “Dia Nacional do Cavalo“.
É sério! Ria o quanto puder, mas é sério.
Pensa bem, um ministro da Comunicação pode criar o dia do “bom dia a cavalo”?
Qual é a mensagem que podemos reter?
Se fizer meme é por sua conta e risco. Nós não daremos a outra face para um coice. Isso não.
Não, não se trata de história de pescador. Basta ver na imprensa.
(Vinício Carrilho Martinez é cientista social e André César é cientista político)




















