Ao trocar o amarelo pelo azul, o governador Tarcísio de Freitas aposta em tom mais moderado para ampliar seu espaço rumo a 2026
Por Elias Tavares – SP
No país do futebol, os símbolos de campo invadem a política com naturalidade. Nos últimos anos, vimos a camisa amarela da Seleção Brasileira ser apropriada como um emblema político da direita, especialmente a partir da ascensão de Jair Bolsonaro.
Mais do que uma escolha estética, o uniforme tornou-se um símbolo de identidade e pertencimento para uma militância que enxergava na “camisa canarinho” a materialização de valores patrióticos, conservadores e nacionalistas.
Mas, como em qualquer jogo de longo prazo, os símbolos também evoluem. Nesse contexto, chama atenção um detalhe aparentemente banal, mas carregado de significado: Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e virtual presidenciável em 2026, tem aparecido sistematicamente vestindo a camisa azul da Seleção.
A camisa azul, tradicionalmente o uniforme número 2 do Brasil, o reserva, a alternativa, a substituta, pode revelar mais do que uma simples preferência pessoal. Surge, então, a pergunta central: seria essa escolha uma estratégia deliberada de diferenciação política?
Enquanto Bolsonaro permanece associado ao amarelo vibrante do bolsonarismo raiz, Tarcísio parece adotar um tom mais sóbrio e menos agressivo, ainda dentro do campo da direita.
A camisa azul pode simbolizar a tentativa de se apresentar como o “número 2” pronto para assumir o posto de número 1, caso Bolsonaro, de fato, decida não disputar a eleição, algo que o próprio ex-presidente ventilou recentemente, ao admitir pela primeira vez a possibilidade de não concorrer em 2026.
A escolha pela camisa azul pode comunicar, simultaneamente, dois movimentos estratégicos:
Lealdade e continuidade: Tarcísio não rompe com o campo bolsonarista. Pelo contrário, mantém o apoio declarado de Bolsonaro e alinhamento programático, apresentando-se como uma versão menos polarizadora, mais técnica e institucional do mesmo projeto político.
Reposicionamento e expansão: Diferenciar-se visualmente pode sinalizar ao eleitorado de centro que Tarcísio representa uma direita “menos estridente”, mais palatável a setores moderados, ao mercado e a parte da elite política. É o mesmo time, mas com uma nova escalação.
Caso Bolsonaro confirme a não candidatura, Tarcísio tende a herdar o grosso da militância e da estrutura. Mas precisará ir além: ocupar um espaço que seja, ao mesmo tempo, de continuidade e renovação. Nesse sentido, o gesto simbólico de vestir a camisa azul revela que ele compreende um ponto essencial da disputa: para vencer, não basta jogar no campo certo, é preciso se apresentar como titular.
No xadrez político que se desenha para 2026, os símbolos ganham força. E se a camisa amarela carrega o peso de um passado recente de polarização, a azul pode representar a tentativa de manter a base mobilizada, mas ampliar o jogo para além dela.
(Elias Tavares é cientista político especializado em comunicação eleitoral e marketing político)

