Quando rock e política se encontram – 2

Música rock cultura Bob Dylan Misto Brasil
Bob Dylan é uma referência para o rock com suas letras políticas/Arquivo/Popload
Compartilhe:

Neste segundo texto são citados músicos de renome mundial e também Ratos do Porão e Inocentes, que teve vida curta, mas deixou uma obra extensa

Por André César – SP

Dando sequência à lista de artistas que têm na política uma fonte de inspiração, mais alguns nomes relevantes.

Leia: quando o rock e a política se encontram

Style Council – criado e liderado pelo ex-The Jam Paul Weller, o Style Council fazia um elegante mix de soul, jazz, new wave e funk. Tida por alguns como “a mais política das bandas de rock”, foi marcado por letras que defendiam o socialismo e criticavam duramente a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher.

O grande sucesso do grupo foi “Shout to the Top”, que ironicamente entrava na abertura do “Programa Amaury Jr” (!!), apresentado pela Band.

Simple Minds – os escoceses de Glasgow tiveram uma carreira marcada por experimentos com o pós-punk, a new wave e o rock de Arena. No final dos anos oitenta, o grupo partiu para o ativismo politico, divulgando o trabalho da Anistia Internacional e criticando duramente o regime do Apartheid na África do Sul.

É dessa época o clássico “Mandela Day”, que se tornou um hit global. Também é desse período o disco mais politizado da banda, “Street Fighting Years”, que conta com a canção “Belfast Child” – o título já diz tudo.

System of a Down – banda de nu metal armênio-americana, foi formado por descendentes de armênios na Califórnia em meados dos anos noventa. Sempre se caracterizou por um som extremamente pesado e por letras engajadas, na qual criticam as lideranças globais e condenam o genocídio armênio pela Turquia, ocorrido entre 1915 e o final da Primeira Guerra Mundial. Canções como “War?” e “Chop Suey!” – essa última banida das rádios por sua letra polêmica – marcam a obra da banda.

Sham 69 – uma das mais icônicas bandas do punk surgiu durante o auge do movimento, nos anos 1970. Mais do que o conteúdo de sua música, em especial as letras, o que marca a trajetória do quarteto são os fãs – em geral Skinheads ligados ao fascismo, o que maculou a imagem do grupo.

Em seus shows, integrantes do National Front, o partido de extrema-direita britânico, marcavam presença para fazer propaganda política. Interessante observar que, nos anos 1960, os primeiros Skinheads tinham viés de esquerda, o que mudou radicalmente com o passar do tempo.

Peter Gabriel – a exemplo do Simple Minds, com quem fez turnê conjunta, o ex-vocalista do Genesis militava em favor da Anistia Internacional. Um dos pioneiros da chamada “world music”, lançou no início dos anos oitenta o clássico “Biko”, música anti-apartheid em homenagem ao ativista sul-africano Stephen Biko, assasinado pelo regime racista no final da década de setenta.

A canção, com forte percussão, tem parte da letra em Xosa, língua falada na África do Sul e no Zimbábue. Gabriel ainda apoiou projetos musicais como o Sun City, que defendia o boicote total ao governo sul-africano.

Bob Dylan – mais do que músico, o Nobel de Literatura de 2016 é um artista completo e uma das maiores referências do século XX. A política, como não podia deixar de ser, sempre esteve presente em sua obra.

Ele abordou a guerra e suas lideranças (“Masters of War”), os direitos civis (“Blowin’ in the Wind” e “The Times they are a Changing”), a questão nuclear, em especial a crise dos mísseis cubanos (“A Hard Rain’s A-Gonna Fall”) e o racismo nos Estados Unidos (Hurricane”), entre outros temas. Mais do que falar de Dylan, o necessário é escutar o maravilhoso trabalho do bardo.

Bob Marley – um dos “pais” do reggae, o jamaicano teve carreira curta (morreu de câncer com pouco mais de trinta anos), mas deixou uma obra extensa e de grande qualidade. Ainda em vida, recebeu da ONU a “Medalha da Paz do Terceiro Mundo” (1978). Seu trabalho foi marcado por letras político-sociais, em defesa dos direitos humanos, e também espirituais. Denunciou a desigualdade social, o racismo e o colonialismo. Devoto da religião rastafari, recomenda-se a audição do clássico disco “”Exodus”, de 1977.

Paul McCartney Clube do Choro DF Misto Brasil
Paul McCartney se apresentou no Clube do Choro, em Brasília/Arquivo/MPL Communications

Paul McCartney – o ex-Beatle não é propriamente um autor de músicas politizadas, mas uma canção em especial marcou esse lado em sua obra. Lançada em 1972 e marcando a estreia do Wings, sua banda pós-Fab Four, “Give Ireland back to the Irish” pode ser considerada sua “Sunday Blood Sunday”.

A letra aborda o chamado “domingo sangrento”, ocorrido na Irlanda do Norte em 30 de janeiro de 1972, no qual tropas britânicas mataram treze pessoas daquele país que protestavam em defesa dos direitos civis.

À época, McCartney foi acusado de apoiar o Exército Republicano Irlandês (IRA), movimento paramilitar que defendia a separação da Irlanda do Norte do Reuno Unido, e a canção foi banida das rádios, BBC inclusive. Em suma, trata-se de um marco na carreira do garoto de Liverpool.

Bad Brains – originado na capital norte-americana, Washington D.C., o grupo faz uma interessante mistura de hardcore, reggae e funk. A exemplo de Bob Marley, são rastafaris. Críticos do racismo nos Estados Unidos, sofreram uma espécie de boicote em sua cidade natal e se mudaram para Nova York (episódio relatado na música “Banned in D.C.).

Por vezes foram comparados ao Clash, uma das bandas mais politizadas do punk inglês.

Fugazi – mais uma banda de Washington D.C., fizeram uma mistura de punk e rock experimental de qualidade. Praticantes do lema punk DIY (Do It Yourself, ou Faça Você Mesmo), sempre foram contrários ao chamado mainstream e políticas consumistas – seja lá o que isso signifique.

Em geral, tocavam em lugares não-convencionais, reforçando a postura de contestação ao sistema, o que os afastou ainda mais das grandes gravadoras e da mídia em geral.

Ratos de Porão – talvez a maior referência do punk paulista e liderados pelo ultracarismático João Gordo (para quem não sabe, formado em Paleontologia), tornaram-se bastante conhecidos na Europa e nas Américas, onde realizam muitas turnês.

O som extremamente pesado com letras de forte caráter social marcam desde sempre a banda. Crítico de movimentos de direita, João Gordo fez fortes ataques ao então presidente Jair Bolsonaro e, sobre o argentino Javier Milei, afirmou que ele (João Gordo) está “lutando contra o fascismo há tempos”. Por sinal, o vocalista é casado com uma argentina.

Inocentes – mais um representante do punk paulistano, foi uma espécie de porta-voz do movimento. O primeiro trabalho do grupo, “Miséria e Fome” (1983) – o título é autoexplicativo – teve todas as treze músicas censuradas.

Gravando mais tarde por uma major, lançaram a canção “Pátria Amada”, uma crítica contundente ao Brasil e seus políticos. O líder da banda, Clemente, hoje integra outro conjunto seminal do punk nacional, o brasiliense Plebe Rude.

Informativo Misto Brasil

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo gratuito no seu e-mail, todas as semanas

Assuntos Relacionados

DF e Entorno

Oportunidades




Informativo Misto Brasil

Inscreva-se para receber conteúdo exclusivo gratuito no seu e-mail, todas as semanas