A perda de capital politico do “capitão” é evidente, mas o que importa aqui é analisar as consequências políticas que não são poucas
Por André César – DF
Não surpreendeu a muitos a prisão, no sábado, 22 de novembro, do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). De domiciliar ele passou à condição de preventiva, ficando em uma cela na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília.
Igualmente não representaram novidade as reações dos aliados mais próximos do ex-mandatário – e versões para o ocorrido não faltam, de “surto” a uma suposta curiosidade pelo que ocorreria com a tornozeleira eletrônica, passando por “sons” que sairiam do equipamento.
A perda de capital politico do “capitão” é evidente, mas o que importa aqui é analisar as consequências políticas imediatas do evento do último final de semana, que não são poucas. Vamos a elas.
Em primeiro lugar, a prisão de fato representa um baque para o bolsonarismo mais “raiz”, em torno de 20% do eleitorado, e seus representantes mais notórios. Falamos em especial de três atores políticos que estão no centro da crise.
O deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), que fugiu da Justiça, batendo de frente com as instituições brasileiras, principalmente o Supremo Tribunal Federal (STF); outro nome é o do senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ), responsável pela “vigília” em defesa dos direitos de seu pai.
Merece um parágrafo à parte a terceira personagem aqui analisada, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em autoexílio nos Estados Unidos desde o início do ano. Acusado de atuar contra os interesses de seu país junto ao republicano Donald Trump, ele tende a se isolar politicamente ainda mais. Com o mandato em risco, ele caminha para se tornar um fardo para seu partido. Fim de jogo para o parlamentar?
Outro aspecto a ser observado diz respeito à direita mais moderada e ao chamado centro. No primeiro caso, não se pode descartar a possibilidade de uma união entre atores não necessariamente vinculados ao bolsonarismo mais extremado – quem pode ganhar aqui são os governadores Ratinho Júnior (PSD-PR) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), pré-candidatos ao Planalto que, de algum modo, tentam se desvincular da imagem do ex-presidente.
Já o centro tende a monitorar a evolução dos fatos para, então, se posicionar. No caso, a ideia da “terceira via” retornaria à cena em um novo quadro – e uma nova roupagem. O problema é que, por ora, não há no radar nomes politicamente viagens. Uma sofisticada e rápida construção junto ao eleitorado se faria necessária, um grande desafio para aqueles que eventualmente se envolverem.
Igualmente a reação de dois partidos que integram formalmente a base aliada mas estão divididos, União Brasil e PP, precisará ser observada. A nova situação de Bolsonaro mudará algo para essas duas legendas?
À esquerda, que hoje celebra a prisão do ex-presidente, recomenda-se cautela. A política brasileira é extremamente dinâmica e não se pode cravar que a sucessão presidencial já esteja definida. Muita água ainda correrá e as próprias pesquisas eleitorais apontam indefinição. O xadrez segue em aberto.
Por fim, de imediato, a indicação do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, controversa por natureza, corre riscos adicionais. Bolsonaristas e oposicionistas em geral podem usar a prisão como pretexto para derrotar o governo, o que seria um revés significativo, e provavelmente o maior do atual mandato, para o presidente Lula (PT).
Como se vê, uma importante jogada se deu no tabuleiro da política nacional, e novos lances são esperados para breve.


