Saiba o que mudou na aposentadoria dos docentes após a reforma da previdência e como as novas regras afetam a vida desses profissionais da rede privada
Por Ana Tominaga e Fernanda Ghazali – DF
O coração de Maria Isabel Londero, 45 anos, batia acelerado naquela manhã de domingo. Horas antes do primeiro dia de prova do Enem de 2025, a professora de língua portuguesa e redação acompanhava, com a ansiedade típica, as especulações sobre o tema da redação deste ano.
Entre a panela no fogo, a pilha de roupas para lavar e o computador ligado com o planejamento da semana pela metade, ela se dividia entre as tarefas domésticas e o compromisso com os alunos. “Enfim, cumprindo a rotina de professora”, diz.
Horas depois, quando o tema da redação foi anunciado, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, Maria Isabel reconheceu de imediato a relevância social e econômica da discussão.
O Brasil vive um processo acelerado de envelhecimento populacional, com reflexos diretos na economia e nas demandas sociais. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, o grupo de pessoas com 65 anos ou mais alcançou 22,1 milhões de indivíduos, o que corresponde a 10,9% da população.
Em 2010, essa faixa etária representava 7,4%, com 14 milhões de idosos. Ao mesmo tempo, a proporção de jovens de até 14 anos recuou de 24% para 19,8% no mesmo intervalo, revelando uma mudança estrutural na pirâmide etária. Mais que um fenômeno demográfico, o envelhecimento afeta diretamente políticas públicas essenciais, entre elas a Previdência Social.
Esse cenário impõe responsabilidades crescentes ao Estado brasileiro. Segundo a Agência Senado, desde a Constituição de 1988, a Previdência Social passou por ao menos sete reformas (a mais recente em 2019), impulsionadas pela necessidade de adaptar o sistema às mudanças demográficas do país.
O envelhecimento da população e a ampliação do tempo de permanência no mercado de trabalho repercutem na rotina de diversas categorias, entre elas a de professores como Maria Isabel.
Há 20 anos na docência, a professora carrega o brilho de quem se emociona ao ver um aluno alcançar a aprovação no vestibular, mas também o cansaço acumulado por noites corrigindo redações.
Natural de Tucunduva, no interior do Rio Grande do Sul, formou-se em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mudou-se para Formosa, em Goiás, após o marido receber uma proposta de trabalho.
Recomeço e adaptação marcaram o início de uma nova etapa profissional, sempre na rede privada, onde, segundo ela, “não há espaço para acomodação”.
“Na escola particular, a gente está o tempo todo sendo testado. Precisa se reinventar, entregar o melhor, porque se não for você, amanhã tem outro preparado para assumir o seu lugar”, reflete. Mesmo após 18 anos na mesma instituição, segue com a dedicação de quem está começando.
“Eu acordo e penso: que aula eu vou dar hoje? Quero dar a minha melhor aula, porque poderia ser o meu filho sentado ali.”
Por trás da dedicação, há o peso de uma rotina exaustiva com o trabalho visível dentro da sala de aula e o invisível, em casa, com as correções e planejamentos. “Às vezes, passo madrugadas corrigindo e ninguém para pra pensar: em que momento isso foi feito? Do que se abriu mão para isso acontecer?”
Ao falar sobre o futuro da profissão, cita Paulo Freire: “Ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores.” Para ela, o reconhecimento começa dentro de casa.
“Os pais sabem o quanto trabalhamos, o quanto ganhamos, mas evitam falar sobre isso. Ninguém quer que o filho trabalhe muito e ganhe pouco. Mas todos querem os melhores professores.”
Ela confessa que ainda não procurou entender a fundo as novas regras da aposentadoria dos professores.
“Tudo muda tanto, é tão instável… Às vezes a gente brinca: será que quando chegar a nossa vez ainda vai existir aposentadoria?”, questiona, entre o riso e a incerteza. Ainda assim, não se imagina deixando a docência por completo.
Como Maria Isabel, muitos docentes que atuam em escolas particulares desconhecem as mudanças trazidas pela Reforma da Previdência, que alterou profundamente as regras da categoria e impôs novos desafios a quem dedicou a vida ao magistério.

O que mudou
A Reforma da Previdência, aprovada em 2019, alterou profundamente a aposentadoria dos professores da educação básica no Brasil. Para os docentes da rede privada, que antes podiam se aposentar apenas pelo tempo de contribuição, a mudança trouxe idade mínima obrigatória e novas regras de cálculo.
Em uma categoria marcada por longas jornadas, estresse e crescente adoecimento, trabalhar mais anos tem se tornado um desafio.
A advogada Nayara Pereira, especialista em direito previdenciário, explica que a aposentadoria dos professores sempre seguiu regras próprias porque a atividade docente é reconhecida como uma profissão de desgaste elevado.
“É uma classe que deveria ser muito mais valorizada, inclusive nas leis previdenciárias”, avalia Nayara. “Muitos passam anos dentro de uma sala de aula lidando com o desgaste psicológico e físico”.
O trabalho em sala de aula exige esforço físico e emocional contínuo, longas jornadas, uso intenso da voz e exposição a condições que podem comprometer a saúde ao longo dos anos.
Esses fatores levaram o Estado a estabelecer critérios diferentes para a aposentadoria do magistério, como forma de compensar o impacto acumulado do trabalho e garantir proteção específica aos profissionais da educação básica. No entanto, para a advogada, “as regras ficaram mais duras justamente para uma categoria que já enfrenta tanta sobrecarga”.
Idade mínima passou a ser obrigatória
Antes de 2019, professores não precisavam cumprir idade mínima. Hoje, precisam:
- 57 anos para mulheres
- 60 anos para homens
- 25 anos de contribuição para ambos
Isso vale para professores da educação básica, tanto na rede pública quanto na privada.
O cálculo do benefício ficou mais rígido
Com a reforma, o valor da aposentadoria passou a ser calculado a partir da média de todos os salários de contribuição, sem excluir os 20% menores valores, como acontecia antes. O benefício começa em 60% dessa média para quem completou 20 anos de contribuição.
A cada ano adicional trabalhado, soma-se 2% ao valor do benefício. Assim, o professor só alcança 100% da média salarial se completar 40 anos de contribuição.
Regras unificadas para rede pública e privada
Exceto pelos requisitos do serviço público, as regras são praticamente as mesmas para docentes das duas redes na educação básica.
Para professores da rede pública ainda é exigido:
- 10 anos no serviço público
- 5 anos no cargo
Como era antes de 2019
- No caso dos professores da rede privada da educação básica, o contraste com as regras atuais era grande:
- Não havia idade mínima
- 30 anos de contribuição para homens
- 25 anos de contribuição para mulheres
- Possibilidade de aposentadoria pelo sistema de pontos (81 para mulheres e 91 para homens)
Regras de transição: quem já estava na profissão antes de novembro de 2019
As transições existem para evitar saltos bruscos para quem estava perto de se aposentar.
Idade mínima progressiva
A idade sobe seis meses por ano até chegar a:
- 57 anos (mulheres) em 2031
- 60 anos (homens) em 2029
Sistema de pontos
Atualmente, exige:
- 87 pontos (mulheres)
- 97 pontos (homens)
A soma aumenta um ponto por ano até:
- 92 pontos (mulheres) em 2030
- 100 pontos (homens) em 2028
Pedágio de 100%
O professor precisa trabalhar o dobro do tempo que faltava para cumprir a regra antiga.
Idade mínima:
- 52 anos (mulheres)
- 55 anos (homens)
Exemplo prático: o que muda na vida real
No caso de Maria Isabel, a mudança é clara. Aos 45 anos e com duas décadas de docência, ela poderia se aposentar aos 50 anos pelas regras antigas, que permitiam benefício apenas pelo tempo de contribuição.
Com a reforma, mesmo após completar 25 anos de magistério, precisará também atingir a idade mínima de 57 anos, ou seja, sete anos a mais de espera.
A especialista ressalta, porém, que cada caso exige análise individualizada e recomenda a realização de um planejamento previdenciário. “Quando falamos em aposentadoria, não existe uma resposta pronta sobre qual é a melhor regra ou o caminho mais rápido.
Por isso, o planejamento previdenciário é fundamental. Ele permite analisar desde quando começaram as contribuições, quais períodos foram registrados e como está composta toda a vida contributiva”, explica.
O impacto das novas regras em uma categoria já pressionada
A postergação da aposentadoria pesa sobre um grupo numeroso e exausto. O Censo Escolar de 2023 registra cerca de 2,35 milhões de professores ativos na educação básica brasileira.
Embora a docência continue atraindo novos profissionais, como mostra o Sisu 2025 ao registrar 1,1 milhão de inscrições em licenciaturas presenciais e um aumento de 23% em relação ao ano anterior, o cotidiano da profissão é marcado por desafios.
Entre esses novos profissionais, está Joyce Sahori. Aos 24 anos, ela ingressa na educação movida por um percurso marcado por dúvidas, descobertas e pela convivência cotidiana com crianças. A experiência como voluntária na igreja foi decisiva para deixar o curso de psicologia e seguir para Letras, porta de entrada que a levou à sala de aula.
O trabalho direto com estudantes em diferentes graus de desenvolvimento reforçou o seu interesse pela psicopedagogia e pela neuropsicopedagogia, áreas nas quais pretende se especializar.
Atualmente no sexto semestre da graduação, Joyce estagia em uma escola particular e auxilia uma turma do quinto ano. Ela relata que, ao mesmo tempo em que descobriu a satisfação de acompanhar o progresso dos alunos, percebeu também a dimensão emocional da carreira.
“Alguns dias são estressantes”, reconhece, citando episódios de conflitos entre estudantes, necessidade de contato com famílias e a responsabilidade de mediar situações que ultrapassam o conteúdo pedagógico.
Entre o planejamento de aulas, as exigências do estágio e a faculdade à noite, ela observa o futuro com cautela: admite preocupação com o ritmo de trabalho, a pressão cotidiana e a remuneração que, para muitos docentes, não acompanha o nível de responsabilidade exigido pela carreira.
O estresse, segundo ela, é um fator determinante para compreender o porquê de tantos docentes aguardarem a aposentadoria. Joyce observa que colegas de faculdade já afirmam não ter intenção de atuar em sala de aula, optando por utilizar a licenciatura como ponte para outras áreas.
“Muitos não se veem como professores porque sabem que a carreira não é valorizada financeiramente e porque é uma trajetória longa e intensa”.
Apesar dos desafios, Joyce diz gostar do que faz e enxerga crescimento na profissão.
“Nem todo dia é fácil, mas cada dia ensina alguma coisa. Este ano tive meu primeiro Dia dos Professores e entendi que, apesar do estresse, a sala de aula ensina muito. A gente aprende com eles tanto quanto eles aprendem com a gente.”
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