Normalização do abuso

Congresso lilás violência contra a mulher Misto Brasília
O Senado e a Câmara integram o Congresso Nacional/Arquivo/Agência Senado
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Vivemos o auge da normalização do abuso, um estágio de decomposição moral onde o escândalo não interrompe o fluxo do poder

Por Marcos Coimbra – DF

No Brasil contemporâneo, a ética deixou de ser alicerce do espírito público para se tornar artefato de museu, uma peça de retórica vazia utilizada apenas em palanques de conveniência.

Vivemos o auge da normalização do abuso, um estágio de decomposição moral onde o escândalo não mais interrompe o fluxo do poder, mas é assimilado por ele.

A indignação, outrora o motor de mudanças, hoje parece sufocada por um cansaço sistêmico, enquanto as estruturas de Estado se fecham em um isolamento institucional desenhado para a preservação de privilégios e a perpetuação da impunidade.

O cenário pós-Lava Jato infelizmente não trouxe a limpeza desejada, ao contrário, gerou uma organizada reação restauradora de proporções continentais.

O sistema, sentindo-se ameaçado, respondeu criando mecanismos de blindagem que transformaram o país em um território onde a fiscalização é, na prática, inexistente, matando no nascedouro qualquer operação de controle que possa gerar um terremoto político.

Os poderes ergueram fortalezas herméticas. A desidratação das leis de controle e a criação de novos ritos processuais garantem que qualquer tentativa de punição aos donos de poder se perca nos corredores do tempo e da burocracia.

O caso do Banco Master surge como o emblema definitivo dessa nova era, uma vez que revela os labirintos da transversalidade da corrupção entre poderes e seus protagonistas. Não se trata mais de ideologia, mas de um consórcio de interesses onde a República é apenas o cenário para um jogo de influência financeira e política.

Diante de tais evidências, o país se depara com um dilema sombrio: ou a República se impõe, as estruturas se rompem e as lideranças se decompõe, ou o problema é arquivado em nome da “estabilidade”. Ao optarmos pela conveniência do silêncio e pelo arquivamento da moralidade, chancelamos nossa própria decadência como nação.

Essa infiltração não se limita aos altos salões, pois desce às entranhas do Estado. O brutal esquema de corrupção no INSS demonstra que a pilhagem é capilar, cruel e onipresente. As recentes investigações que apontam para parcerias ocultas entre legisladores e operadores de esquemas previdenciários elevam a indignação.

Esse conluio escancara que a corrupção não é apenas desvio, mas método sofisticado de blindagem que utiliza a estrutura da República para alimentar o enriquecimento ilícito, cruel e impune.

Paralelamente, assistimos à simbiose entre o crime organizado e o poder público. A infiltração de facções e milícias nas instâncias de decisão e nos altos círculos de poder não é mais uma hipótese, mas uma realidade que corrói a soberania nacional.

Enquanto o crime transita pelos corredores do Congresso Nacional, frequenta salões dos tribunais e percorre gabinetes do governo, a população segue refém de uma guerra de narrativas que simula confronto, mas na verdade apenas trabalha pela manutenção do sistema.

O resultado dessa engenharia é o isolamento completo da sociedade frente a um sistema que se autoprotege. O Brasil tornou-se um espectador passivo de sua própria pilhagem.

Estamos diante da percepção amarga de que o país não vive uma democracia de valores, mas uma encenação de ritos que servem apenas à manutenção de privilégios. O sistema está blindado, a moralidade vencida e o abuso, enfim, normalizado.

(Márcio Coimbra é presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia e diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais)

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