Selo nacional de alfabetização: entre o encanto e a vergonha

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A alfabetização deve ser um programa de Estado para reduzir as desigualdades culturais/Arquivo/Pirapetinga
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A premiação de milhares de redes de ensino evidencia que há iniciativas locais dignas, mas a realidade não pode ser ignorada

Por Luiz Henrique Pereira da Costa – MG

A recente cerimônia de entrega do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização representa, sem dúvida, um esforço relevante do Estado brasileiro em valorizar políticas públicas voltadas à educação básica.

A presença de autoridades master no protagonismo da solenidade reforça o simbolismo institucional do compromisso assumido com a alfabetização das crianças.

É justo reconhecer: mobilizar 100% dos estados e municípios em torno de uma política educacional é um feito significativo.

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A premiação de milhares de redes de ensino evidencia que há iniciativas locais dignas de destaque, que gestores e educadores empenhados em transformar a realidade educacional merecem ser enaltecidos e a divulgação do feito encoraja seguir o exemplo.

No entanto, por trás do cenário festivo, emerge uma realidade que não pode ser ignorada. O processo de alfabetização continua tênue.

Os próprios dados anunciados revelam que apenas 66% das crianças foram alfabetizadas na idade adequada. Isso significa, de forma objetiva e preocupante, que 34% — ou aproximadamente um terço dos alunos — não atingiram o nível esperado.

Em números absolutos, estamos falando de milhões de crianças privadas de uma habilidade essencial para o desenvolvimento cognitivo, social e econômico.

Chamar isso de superação de meta pode até ser tecnicamente correto dentro de um indicador administrativo, mas está longe de representar uma vitória educacional plena. Ao contrário, evidencia uma fragilidade estrutural persistente no sistema de ensino brasileiro.

A narrativa celebrativa, portanto, corre o risco de se distanciar da realidade concreta das salas de aula. Simbolizando uma ação política administrativa em detrimento de soluções com eficiência pedagógica.

Quando se premia em larga escala, um sistema que ainda falha em alfabetizar plenamente suas crianças, corre-se o risco de transformar reconhecimento em instrumento político, e não em diagnóstico honesto.

É preciso cautela. Valorizar a primeira fase do aprendizado é prioridade que se impõe.

Reconhecer boas práticas é importante, mas não se pode confundir avanço parcial com solução do problema. A alfabetização na idade certa não pode ser tratada como meta relativa — ela deve ser compromisso absoluto.

Sarau literário escola educação Pirapetinga Misto Brasil
Sarau Literário da Escola Municipal Coronel Ribeiro dos Reis/Arquivo/Divulgação/Pirapetinga

Exemplo de responsabilidade

Cada criança não alfabetizada representa uma ruptura no direito fundamental à educação de qualidade e a sua mantença potencializa déficits estruturais em outras disciplinas.

Mais do que eventos e certificações, o país precisa enfrentar questões estruturais: formação consistente de professores alfabetizadores; metodologias eficazes, baseadas em evidências científicas.

Acompanhamento individualizado da aprendizagem; ampliação do tempo escolar com qualidade; foco real em língua portuguesa, na língua inglesa e o desenvolvimento de raciocínio lógico para a compreensão das habilidades cognitivas.

Sem isso, qualquer selo corre o risco de se tornar apenas um símbolo — bonito, necessário até —, mas insuficiente diante da urgência do problema.

Em Pirapetinga-MG os indicadores são crescentes (medalha ouro) e doravante as perspectivas se apresentam alvissareiras com a introdução do ensino bilingue, mediante a utilização de inovadora metodologia de alfabetização e reconhecimento fonético, por letramento silábico, da língua inglesa, focado na engenharia da linguagem.

O município desenvolve com destemor a valorização de ações pedagógicas, valorizando o professor com responsabilidade direta pelas salas de leitura, objetivando enriquecer o estoque de conhecimento na literatura e, por consequência, o desenvolvimento do pensamento crítico.

O momento, portanto, não é apenas de celebração. É, sobretudo, de reflexão — e, em certa medida, de tristeza.

Tristeza porque, apesar dos esforços, ainda estamos distantes de garantir a todas as crianças brasileiras o direito básico de ler e escrever no tempo certo.

Tristeza porque os números, quando analisados com rigor, revelam mais exclusão do que inclusão.

A educação brasileira não precisa apenas de reconhecimento institucional. Precisa de verdade, coragem e prioridade absoluta.

Porque alfabetizar não é meta de governo. É dever de Estado.

(Luiz Henrique Pereira da Costa é prefeito do município mineiro de Pirapetinga)

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