Copa do Mundo: uma experiência tcheca

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Tchéquia e Coreia do Sul se enfrentaram na Copa do Mundo de 2026/Arquivo/Fifa
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Na Copa do Mundo, os tchecos foram dos times que mais enfrentaram o Brasil em Copas do Mundo, cinco vezes

Por André César – SP

A bola já rola na América do Norte. Dentre os primeiros jogos realizados na atual edição da Copa do Mundo de futebol, este humilde escriba chama a atenção para Coreia do Sul versus Tchéquia.

A partida teve um segundo tempo especialmente emocionante, onde o escrete oriental venceu de virada – 2 a 1.

Na verdade, quero falar dos tchecos. Tenho um grande amigo que, além de profundo conhecedor do velho esporte bretão, tem origem naquele país pelo lado paterno. A torcida pela seleção, assim, foi inevitável. Vamos aprofundar um pouco o tema.

Seu avô (arquiteto), fugindo do tenso ambiente pré-Segunda Guerra Mundial, aportou no Brasil oriundo da região de Brno, capital da Morávia do Sul. Importante pólo educacional (quase cem mil estudantes em quatrocentos mil habitantes), é o centro do Judiciário na terra de Kafka.

A cidade tem como personalidades históricas figuras como os escritores Robert Musil (“O homem sem qualidades”) e Milan Kundera (“A insustentável leveza do ser”), o geneticista Gregor Mendel e o pintor Alfons Mucha. Não é pouco.

Ao longo do século XX, os tchecos não tiveram vida fácil, muito pelo contrário.

Para além das mudanças de nome (Tchecoslováquia, República Tcheca após a divisão com a Eslováquia, Tchéquia hoje), a nação enfrentou desafios de monta.

Invasão nazista no final da década de trinta, regime comunista a partir de 1948 (ingerência total por parte da então União Soviética, com direito a presença de tropas de Moscou em um momento de grave crise), a chamada “Primavera de Praga”, tentativa de liberalizar o regime em 1968, e a Revolução de Veludo de 1989, que deu início à redemocratização.

Dois nomes em especial merecem destaque – o reformista Alexander Dubcek, expoente máximo da Primavera de Praga que foi afastado pelos soviéticos, e o dramaturgo Václav Havel, o carismático líder da dissidência democrática que assumiu o comando do país após a queda do Muro de Berlim. Muita história.

Mas falemos de futebol. Os tchecos foram dos times que mais enfrentaram o Brasil em Copas do Mundo, cinco vezes, incluindo a final no Chile em 1962, com a seleção comandada por Garrincha chegando ao bicampeonato após vitória por 3 a 1.

Inesquecível foi o jogo no México em 1970, com a seleção do leste europeu abrindo o placar com Petras (com seu famoso “sinal da cruz invertido” na comemoração) e levando a virada – Brasil 4 a 1. No saldo final, os brasileiros ganharam três partidas da atual Tchéquia, contra dois empates.

Sobre os tchecos, foram vice-campeões em duas oportunidades (além do já citado ano de 1962, perderam a final para a Itália de Mussolini em 1934). No total, foram nove participações, contando o torneio atual. Um currículo de respeito.

Enfim, como se vê, mais que um esporte coletivo, futebol é cultura e história. Recordar é preciso sempre, em tempos de Copa do Mundo ou não.

PS: os diários do avô de meu amigo, escritos no período em que deixou sua terra natal em direção ao Brasil, estão sendo traduzidos do tcheco. Um verdadeiro tesouro histórico.

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