Estudo da FGV RJ joga luz sobre as percepções de uma das faixas geográficas economicamente mais potentes e politicamente mais influentes
Por Misto Brasil – DF
Um estudo recente desafia o que muitos especialistas em geopolítica consideravam uma regra inquestionável: a ideia de que quem compra mais, manda mais no coração político de uma região.
Uma pesquisa inédita realizada pela Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV RI) revela que a pujante fronteira agrícola do Brasil — composta pelas regiões Norte e Centro-Oeste — vive um claro divórcio entre o pragmatismo de seus negócios e suas convicções ideológicas.
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O relatório intitulado “Como a Fronteira Agrícola Vê as Relações Internacionais” joga luz sobre as reais percepções de uma das faixas geográficas economicamente mais potentes e politicamente mais influentes do país.
Os dados coletados pela FGV RI mostram que a balança comercial e a confiança política correm em trilhos completamente separados na cabeça do produtor e dos moradores da fronteira.
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A Realidade Comercial: A China é a cliente incontestável da região, tendo absorvido assustadores 80% das exportações de soja e 86% das vendas de carne bovina em 2022.
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O Sentimento Político: Apesar de sustentarem a economia local, os chineses enfrentam uma crise de credibilidade. Apenas 12,6% dos entrevistados consideram o país asiático “muito confiável” — uma queda expressiva de quase 20 pontos percentuais desde 2017.
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A Preferência Americana: No lado oposto, os Estados Unidos, mesmo sem o mesmo peso de compras na região, são vistos como “muito confiáveis” por 21,8% dos locais.
“A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente”, resume o diretor da FGV RI, Matias Spektor.
A Cultura Antiestatista e o Pragmatismo com a Europa
Para entender essa dinâmica, o relatório mapeou o perfil ideológico dos moradores: 83,5% se identificam como de direita ou centro.
Existe uma forte mentalidade de livre mercado e aversão ao controle estatal, onde 64,3% dos entrevistados acreditam que a regulação do governo sobre os negócios traz mais prejuízos do que benefícios.
É essa lente ideológica que faz a região simpatizar com o modelo americano e desconfiar do regime centralizado de Pequim.
Essa mesma postura explica a relação com a União Europeia (UE). A fronteira adota uma postura de conformidade pragmática em relação às duras exigências ambientais do bloco europeu:
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74,3% concordam que cumprir as regras da UE melhora a reputação internacional do Brasil.
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66,9% ponderam que essas mesmas regras reduzem a competitividade dos produtos nacionais.
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61,5% enxergam que as normas servem, no fundo, para proteger os interesses econômicos da própria Europa.
O estudo deixa um alerta claro para os diplomatas e governantes em Brasília: a fronteira agrícola hoje representa cerca de 15% do eleitorado nacional e gerou impressionantes USD 86,6 bilhões em exportações em 2025 (cerca de 25% de tudo o que o Brasil vende ao exterior).
Com esse tamanho, as preferências e os valores dessa população impõem limites reais e práticos à condução da política externa brasileira, mostrando que qualquer estratégia que tente forçar um alinhamento político automático com parceiros comerciais baseando-se apenas em números de exportação está fadada a ler o Brasil de forma completamente errada.



















