A palavra nasceu da transformação do nome de Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, matemático, astrônomo e geógrafo
Por Charles M. Machado – SC
Todos os dias pronunciamos a palavra “algoritmo”. Dizemos que o algoritmo escolheu uma música, recomendou um filme, escondeu uma publicação, apresentou uma propaganda ou decidiu o que apareceria em nossa tela.
Falamos dele como se fosse uma entidade autônoma, uma inteligência invisível que observa nossos movimentos, conhece nossas preferências e organiza silenciosamente parte de nossas vidas.
Entretanto, dentro da palavra “algoritmo” permanece escondido o nome de um homem que viveu há mais de mil anos, mas algoritmo não era exatamente uma pessoa. A palavra nasceu da transformação do nome de Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, matemático, astrônomo e geógrafo que viveu aproximadamente entre os anos 780 e 850.
Al-Khwarizmi trabalhou em Bagdá e esteve ligado à Casa da Sabedoria, um dos mais importantes centros de estudos e produção científica de sua época. Escreveu sobre matemática, astronomia, geografia e sobre o sistema de numeração de origem indiana que posteriormente seria difundido no Ocidente.
Quando uma obra sua sobre os numerais indo-arábicos foi traduzida para o latim, seu nome apareceu no título sob a forma Algoritmi. A tradução latina ficou conhecida como Algoritmi de numero Indorum. Com o passar dos séculos, a palavra deixou de identificar apenas o autor e começou a designar os métodos de cálculo apresentados em seus escritos.
Foi assim que o nome de um homem se transformou no nome de um procedimento.
Sua importância não decorre da invenção isolada de uma conta ou de uma fórmula. Al-Khwarizmi contribuiu para organizar e difundir uma maneira de resolver problemas por meio de etapas ordenadas. Diante de determinada questão, seria possível estabelecer uma sequência de operações que, quando corretamente executada, conduziria a um resultado.
Essa é, em essência, a lógica de um algoritmo. O algoritmo medieval organizava uma sequência de operações para chegar à solução de um problema.
“O algoritmo decidiu”
O algoritmo contemporâneo organiza informações para chegar até nós.
Algoritmos passaram, então, a calcular rotas, processar pagamentos, identificar fraudes, ordenar páginas, reconhecer imagens, traduzir idiomas e recomendar produtos. Mais recentemente, tornaram-se parte essencial dos sistemas de inteligência artificial e aprendizado de máquina.
Mas é nas plataformas digitais que a palavra ganhou uma dimensão quase mitológica.
Quando afirmamos que “o algoritmo decidiu”, geralmente não estamos falando de uma única fórmula. Estamos nos referindo a diferentes sistemas de classificação, previsão e recomendação que trabalham em conjunto.
Esses sistemas analisam sinais como curtidas, buscas, localização aproximada, histórico de navegação, tempo de permanência em uma publicação, interrupção de um vídeo, compartilhamentos e compras anteriores.
Cada uma dessas ações ajuda a formar uma representação estatística do usuário. Não é necessário que a plataforma conheça profundamente uma pessoa como um amigo ou familiar a conhece. Basta que consiga identificar padrões suficientes para estimar o que poderá fazê-la clicar, comprar, reagir ou continuar conectada. A internet não inventou o comércio da atenção. Ela o aperfeiçoou.
No modelo tradicional, o anunciante escolhia um horário, um programa ou uma publicação de acordo com o público que pretendia alcançar. Na economia digital, a seleção pode ocorrer individualmente.
Duas pessoas que acessam a mesma página podem visualizar anúncios diferentes porque seus históricos, interesses estimados e padrões de comportamento não são iguais.
Por isso, a conhecida máxima segundo a qual, quando não pagamos por um produto, nós nos tornamos o produto, precisa de um pequeno ajuste.
Não somos vendidos literalmente. O que se comercializa é a possibilidade de alcançar nossa atenção, influenciar nosso comportamento e prever nossas escolhas.
Era da Desatenção
Nossa atenção é limitada. Não podemos olhar para todas as telas, assistir a todos os vídeos, ler todas as notícias e acompanhar todas as pessoas ao mesmo tempo. Essa escassez transforma o tempo humano em um recurso economicamente valioso.
As plataformas, os veículos de comunicação, os anunciantes, os influenciadores, as empresas e os agentes políticos disputam parcelas desse recurso. Todos querem alguns segundos de nossa concentração. Todos querem permanecer diante de nossos olhos por tempo suficiente para gerar uma reação.
É nesse ponto que a economia da atenção começa a produzir a Era da Desatenção.
Não se trata simplesmente de afirmar que as pessoas perderam a capacidade de prestar atenção. A questão é mais profunda. A desatenção passou a ser produzida por uma estrutura econômica que fragmenta continuamente o foco, interrompe atividades, multiplica estímulos e transforma cada pausa em uma oportunidade comercial.
O problema não é a ausência de atenção. É a existência de uma disputa industrial pela sua captura.
Os sistemas digitais não apenas exibem conteúdos. Eles também observam os resultados de cada apresentação. Se uma imagem gera mais cliques, poderá ser mostrada novamente. Se determinado título mantém os leitores por mais tempo, estruturas semelhantes poderão ser favorecidas. Se uma notificação faz o usuário retornar ao aplicativo, seu horário e sua linguagem podem ser reproduzidos.
Testes comparativos permitem que empresas apresentem diferentes versões de uma página, de um botão ou de uma mensagem para grupos de usuários. A versão que produz mais respostas pode ser adotada. Assim, pequenas alterações de palavras, imagens, posições e tonalidades são avaliadas a partir do comportamento de milhares ou milhões de pessoas.
A experiência digital deixa de ser apenas utilizada pelo usuário. Ela também passa a utilizar o usuário como fonte permanente de aprendizado.

Selecionar notícias e conteúdos políticos
A cada interação, o sistema pode aperfeiçoar suas previsões. Aprende o que nos prende à tela, o que desperta curiosidade, o que provoca medo, o que produz indignação e o que aumenta a possibilidade de consumo.
Quanto mais eficientes se tornam essas previsões, maior é a capacidade de transformar comportamento em receita.
A mesma estrutura que recomenda um produto também pode selecionar notícias e conteúdos políticos.
As plataformas passaram a exercer uma função antes concentrada nos editores de jornais, revistas e emissoras. Algoritmos filtram, classificam e ordenam publicações, determinando quais conteúdos receberão maior visibilidade e quais permanecerão praticamente invisíveis.
A OCDE reconhece que as plataformas atuam como intermediárias da atenção e como curadoras de notícias, escolhendo por meio de algoritmos a ordem em que as informações aparecem para cada usuário.
Ao selecionar o que vemos repetidamente, o sistema ajuda a definir quais assuntos parecem importantes, quais comportamentos parecem majoritários e quais versões dos acontecimentos se tornam mais familiares.
A repetição pode criar a sensação de consenso mesmo quando estamos diante de um recorte personalizado da realidade.
Cada pessoa passa a habitar uma experiência informacional parcialmente diferente. O espaço público comum é substituído por milhares de mundos particulares, formados segundo preferências, medos, hábitos e probabilidades calculadas.
Nasce, assim, uma espécie de metaverso político dos candidatos e líderes de estimação: ambientes personalizados nos quais o cidadão não procura necessariamente compreender a realidade, mas confirmar aquilo em que já acredita.
A disputa política deixa de ocorrer somente no debate público. Ela passa também pela capacidade de compreender, alimentar e explorar os sistemas que distribuem a atenção.
Ao personificarmos o algoritmo, corremos o risco de ocultar as escolhas humanas e empresariais existentes por trás dele. Nenhum algoritmo surge espontaneamente. Alguém define o problema, escolhe os dados, estabelece os critérios e determina o resultado que deverá ser valorizado.
Se uma plataforma pretende aumentar o tempo de permanência, seus sistemas serão orientados para localizar conteúdos capazes de manter o usuário conectado. Se o objetivo é vender, buscarão identificar os estímulos que aumentem a possibilidade de compra.
Se a meta é gerar participação, poderão privilegiar conteúdos que provoquem reações mais intensas.
Por isso, dizer que “foi o algoritmo” não encerra a discussão. Ao contrário, deveria iniciá-la.
Quem definiu o seu objetivo? Quais dados foram utilizados? Que comportamentos estão sendo estimulados? Quem se beneficia do resultado? O que o sistema torna visível e o que mantém escondido?
Existe uma profunda ironia nessa história
Al-Khwarizmi ajudou a sistematizar métodos destinados a tornar os cálculos mais claros. Mais de mil anos depois, seu nome passou a identificar sistemas tão complexos que frequentemente não conseguimos compreender como produzem suas escolhas.
O procedimento criado para organizar o raciocínio transformou-se, em muitos casos, numa caixa-preta.
Pronunciamos “algoritmo” como se estivéssemos falando de uma força da natureza. Mas estamos falando de uma construção humana. Existem pessoas, empresas, modelos econômicos e decisões políticas por trás de cada sistema.
O algoritmo não precisa ser tratado como inimigo. Ele pode ajudar a encontrar informações, diagnosticar problemas, reduzir desperdícios, organizar cidades e ampliar capacidades humanas.
O risco surge quando sua eficiência se combina com a opacidade, a concentração de poder e um modelo econômico dependente da captura permanente da atenção.
Al-Khwarizmi provavelmente nunca imaginou que uma transformação de seu nome chegaria às telas de bilhões de pessoas.
Muito menos que seria invocada diariamente para explicar por que vemos determinada notícia, conhecemos determinada pessoa, compramos determinado produto ou permanecemos conectados durante horas.
O algoritmo começou como um caminho ordenado para resolver problemas. Na Era da Desatenção, tornou-se também um caminho utilizado pelas máquinas para chegar até nós.
Conhecer a origem da palavra não é apenas fazer justiça à memória de Al-Khwarizmi. É recordar que toda tecnologia possui uma história humana, e que, antes de perguntarmos o que o algoritmo decidiu, precisamos saber quem decidiu aquilo que o algoritmo deveria fazer.