A questão do “legado” entrou em voga a partir do meio para o final do século passado, como grande referência as Olimpíadas de Barcelona
Por André César – DF
Sempre que um país torna-se sede de uma Copa do Mundo, ou uma cidade recebe os Jogos Olímpicos, a palavra “legado” entra em cena. No recém-encerrado torneio futebolístico, disputado na América do Norte, a situação não poderia ser diferente. Afinal, o que ficará daqui em diante?
Uma rápida introdução. A questão do “legado” (sempre entre aspas) entrou em voga a partir do meio para o final do século passado e talvez tenha como grande referência as Olimpíadas de Barcelona, em 1992.
Veja a série especial sobre a Copa do Mundo 2026
Na prática, a cidade catalã passou por uma autêntica revolução – radicais mudanças na estrutura local, não somente na infraestrutura mas também na autoestima da população. O saldo final foi altamente positivo e, hoje, a região é das mais visitadas por turistas pelo mundo – mas não só.
Exemplo absolutamente contrário, em termos olímpicos, se deu na cidade de Atenas, em 2004. A capital grega realizou o evento com grande caráter simbólico – a celebração do centenário das Olimpíadas modernas, justamente no local do primeiro evento (1904).
Deu tudo errado, no entanto. Gastou-se dinheiro em demasia na construção de instalações que, em tese, deveriam ser permanentes, e os recursos para a manutenção dessa estrutura se esgotaram rapidamente.
Pior, a dívida acumulada por pouco não levou à falência a cidade e também o país (que por sinal sofreu com a grave crise de 2009/2010, quase arrastando a União Europeia). Com o perdão da expressão, chegou-se perto de uma autêntica tragédia grega.
Abordaremos agora o caso brasileiro. Ou melhor, casos, no plural. Tanto a Copa do Mundo (2014) quanto os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016), sem dúvida, trouxeram alegrias, mas também dissabores.
No campo do futebol, mesmo antes do evento, ocorreram as manifestações populares que criaram os motes “Não vai ter Copa” e “FIFA go home”, com críticas ao baixo investimento em serviços públicos no país. Terminado o torneio, o que se viu foi uma série de obras não concluídas em diversas cidades-sede, além de estádios que se mostraram verdadeiros elefantes brancos.
Igualmente as Olimpíadas representaram um problema para os governos, os organizadores e para a população em geral. Em particular, a Vila Olímpica do Rio de Janeiro, que acolheu moradores após o evento, deixou um triste legado.
As grades entortaram, a rede de esgoto estourou e há buracos para todo lado, com alguns acessos interditados. Em resumo, um inferno.
Também as duas últimas Copas do Mundo mostram que o tal “legado” pode não se realizar em termos de benefícios. Após o torneio de 2018, a Rússia continuou sendo uma autocracia sob o comando de Vladimir Putin.
No Qatar, mais do mesmo passado 2022, com as autoridades impondo severas restrições aos cidadãos. Nada mudou.
E agora, no imediato pós-Copa de 2026?
Em tese, pouco pode se esperar em termos de benefícios. A infraestrutura já estava montada há tempos, especialmente no Canadá e nos Estados Unidos – nesse último caso, mesmo os estádios utilizados foram adaptados de arenas antes utilizadas no futebol americano.
Nada a acrescentar. Nesses dois países, por sinal, o nobre esporte bretão deverá continuar a ser um “bicho estranho”, com escasso apelo popular.
Por fim, ficará a lembrança do duro tratamento dado por Donald Trump e companhia aos envolvidos no evento – seleções e torcedores de diversos países em especial, que sofreram agruras nas mãos de agentes governamentais. Lamentável e deplorável.
A Copa do Mundo de 2026 acabou e mais uma página da História está escrita. A vida segue.


















