A implementação mostra transformações na economia, a capacidade brasileira de gerar empregos e a força empreendedora
Por Rafael Caribé – SP
Quando um sistema criado para identificar empresas começa a ficar sem combinações possíveis, existe aí um sinal de que o empreendedorismo brasileiro cresceu mais rápido do que a infraestrutura que o sustenta. E os dados corroboram para essa análise.
Para ter uma ideia, em 2025, o país registrou a abertura de 5,1 milhões de empresas, um crescimento recorde cujo número é 18,6% maior em relação ao ano anterior. Das companhias abertas, mais de 4,9 milhões são pequenos negócios.
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Esse volume de novos empreendimentos trouxe à tona um desafio para a Receita Federal, o esgotamento das combinações numéricas do atual modelo de CNPJ, dando origem ao CNPJ Alfanumérico, que entrará em vigor a partir de julho.
O objetivo é ampliar o leque de combinações possíveis ao permitir que letras do alfabeto ocupem espaços anteriormente reservados apenas a números.
A estrutura de 14 dígitos será mantida, mas haverá a inclusão de caracteres de A a Z, excluindo-se as letras I, O, Q e F para evitar confusões visuais com números.
Mais do que apenas uma adaptação técnica necessária para garantir a continuidade da identificação única de empresas, a implementação mostra transformações na economia, a capacidade brasileira de gerar empregos, uma veia pulsante empreendedora e a força dos novos empreendimentos no país.
Só no ano passado, as micro e pequenas empresas (MPEs) foram responsáveis por 80,5% das contratações feitas, segundo levantamento do SEBRAE.
Além disso, segundo o relatório executivo “Empreendedorismo no Brasil 2025”, da GEM, quase 40% dos brasileiros querem abrir um negócio nos próximos três anos, colocando o país como uma das economias com maior intenção empreendedora no mundo.
E há uma mudança gradual na motivação para empreender ao longo do tempo.
Desafio será a infraestrutura tecnológica
O estudo aponta que a escassez de empregos vem perdendo relevância (88,4% em 2019 para 71% em 2025) e a ambição ganhando mais destaque como justificativa para abrir novas companhias, sendo ‘fazer a diferença no mundo’ o fator motivador para 74,6% dos empreendedores iniciais. Além disso, 68,7% deles declaram estar envolvidos na criação de um negócio com o objetivo de obter maior riqueza.
Para os empreendedores que já possuem negócios estabelecidos, não haverá alteração no CNPJ e o número atual permanecerá válido, sem necessidade de atualização cadastral na Receita Federal. O impacto só será sentido na hora de emitir notas fiscais para terceiros ou ao abrir novas filiais, que já poderão nascer sob o formato alfanumérico.
O desafio, portanto, será a infraestrutura tecnológica que sustenta essas operações, que recai sobre os desenvolvedores de sistemas.
Softwares de gestão (ERP), plataformas de nota fiscal e ferramentas contábeis precisarão ser atualizados para validar e processar o novo padrão. Embora a lógica do dígito verificador permaneça a mesma, as letras agora deverão ser convertidas em valores numéricos baseados na tabela ASCII para o cálculo.
Como CEO da Agilize, nutro algumas dúvidas sobre a capacidade de prontidão dos sistemas, que historicamente enfrentam dificuldades em atualizações dessa magnitude.
Papel do pessoal de contabilidade
Sabemos que mudanças desse tipo costumam gerar instabilidades iniciais e problemas diversos de integração. E, embora o novo CNPJ alfanumérico não traga uma transformação evidente na forma de fazer contabilidade e a mudança possua um propósito apenas funcional, é interessante perceber o papel da digitalização para o avanço e consolidação de novos empreendimentos.
Ainda de acordo com o estudo da GEM, 94,8% dos empreendedores iniciais já utilizam tecnologias digitais ou aplicativos para vender seus produtos ou serviços.
Neste momento de atualização e adaptação, o papel do profissional de contabilidade é atuar como guia estratégico, tranquilizando o cliente e explicando que, embora a rotina contábil não mude, a atenção aos sistemas internos deve ser redobrada.
Recomendo que as empresas iniciem diálogos com seus fornecedores de software para garantir que as ferramentas estejam aptas a reconhecer letras no campo do CNPJ até a data limite.
A transição será gradual e informada pela Receita Federal, mas a proatividade na revisão de cadastros e integrações evitará dores de cabeça operacionais no futuro.
(Rafael Caribé é cofundador e CEO da Agilize com formação em Ciências da Computação pela Universidade Federal da Bahia)
















