O preço da desinformação na era da desatenção

Internet golpe reclado computador Misto Brasil
Os golpes circulam pela internet até mesmo em grupos de WhatsApp falsos/Arquivo/Toxicologia Pardini
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Como o ruído das redes se converte em golpes, perdas patrimoniais e custos para toda a economia quando a vítima autoriza o pagamento.

Por Charles Machado – SC

Durante muito tempo, a desinformação foi tratada principalmente como um problema político, eleitoral ou cultural. Essa leitura se tornou insuficiente.

Na economia conectada, uma informação falsa pode atravessar milhões de telas antes que uma empresa, uma autoridade ou uma pessoa consiga reagir; pode induzir transferências bancárias, alterar decisões de investimento, provocar corridas contra ativos, destruir reputações e elevar o custo de confiança de mercados inteiros.

O que circula como postagem, vídeo ou mensagem não permanece no plano das opiniões. Em algum momento, transforma-se em contrato, ordem de compra, saque, Pix, fuga de capital ou perda patrimonial.

Essa é uma das manifestações mais concretas da Era da Desatenção. A disputa pela atenção criou modelos de negócio que remuneram alcance, permanência e reação. O conteúdo mais verdadeiro não possui, necessariamente, a mesma vantagem competitiva do conteúdo mais emocionante.

A dúvida ponderada perde para a certeza fabricada; a explicação perde para a promessa; a prudência perde para a urgência.

Nesse ambiente, a desinformação deixa de ser apenas uma falha do sistema e passa a explorar exatamente aquilo que o sistema valoriza: velocidade, novidade, indignação e compartilhamento.

Da mentira viral ao prejuízo mensurável

Os números já permitem atribuir dimensão econômica ao fenômeno. Dados divulgados pela Federal Trade Commission dos Estados Unidos mostram que as perdas declaradas com golpes de investimento chegaram a US$ 7,9 bilhões em 2025, com prejuízo mediano individual superior a US$ 10 mil.

No mesmo ano, fraudes iniciadas especificamente nas redes sociais consumiram US$ 2,1 bilhões; mais da metade desse montante, US$ 1,1 bilhão decorreu de falsas oportunidades de investimento. A sobreposição é reveladora: a rede não serve apenas para divulgar o golpe, mas para criar a convicção que alimenta a decisão patrimonial.

Anúncios prometem rentabilidade extraordinária. Supostos especialistas oferecem orientação; grupos de WhatsApp simulam uma comunidade de vencedores; plataformas exibem lucros inexistentes.

O prejuízo não depende de invasão ao banco. Nasce de uma narrativa capaz de fazer a própria vítima autorizar a transferência.

O relatório de 2025 do Internet Crime Complaint Center, ligado ao FBI, registrou US$ 7,2 bilhões em perdas associadas a fraudes de investimento com criptoativos. Esses esquemas normalmente começam em mensagens, redes sociais, anúncios ou aplicativos de relacionamento e migram para ambientes privados, onde a vítima recebe orientações de falsos especialistas.

A aparência de legitimidade é reforçada por saldos e ganhos simulados. Quando chega o momento do resgate, surgem cobranças de impostos, taxas ou garantias adicionais. A desinformação, nesse caso, não é um acessório do golpe: é o ativo central da operação criminosa.

Outro dado ajuda a perceber a expansão desse modelo. Material educativo do Portal do Investidor, mantido pela CVM, registra estimativa de que o chamado pig butchering, fraude de relacionamento em que a confiança é cultivada por semanas ou meses antes da indicação de um falso investimento, tenha provocado perdas globais superiores a US$ 75 bilhões entre 2020 e 2024.

Aqui, a mentira não se resume à rentabilidade anunciada: envolve uma identidade, uma relação, uma rotina de conversas e uma falsa prova de sucesso. A decisão de investir é preparada emocionalmente muito antes da transferência.

No Brasil, documento público de 2026 que fundamenta programa de resposta integrada a vítimas menciona mais de 2,2 milhões de registros de fraudes digitais em 2024, média superior a quatro ocorrências por minuto. O número deve ser lido com cautela, porque reúne diferentes modalidades e não representa apenas fraudes originadas em redes sociais.

Ainda assim, ele revela a escala de uma economia paralela baseada na engenharia social, na falsificação de identidades e na exploração da confiança.

O Banco Central também vem tratando golpes e fraudes como tema de cidadania e estabilidade financeira, adotando mecanismos de segurança no Pix e ferramentas para impedir a abertura fraudulenta de contas.

A arquitetura econômica da desinformação

A fraude digital prospera porque combina três mercados. O primeiro é o mercado da atenção: algoritmos selecionam o que tem maior probabilidade de gerar reação. O segundo é o mercado da confiança: influenciadores, celebridades, jornalistas e marcas emprestam credibilidade, conscientemente ou por meio de perfis clonados.

O terceiro é o mercado da liquidez: Pix, contas de passagem e criptoativos permitem que a persuasão seja rapidamente convertida em dinheiro e, em certos casos, deslocada para cadeias de difícil reversão. A desinformação liga esses três mercados e reduz o intervalo entre a mentira e o dano.

A inteligência artificial ampliou essa capacidade. Relatório da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, publicado em 2026, destaca que rostos e vozes de celebridades, jornalistas e apresentadores vêm sendo clonados e inseridos em anúncios falsos para promover produtos enganosos e golpes. O deepfake altera a antiga equação probatória do ambiente digital: ver e ouvir já não bastam para acreditar.

A fraude deixa de depender apenas de um texto persuasivo e passa a reproduzir voz, aparência, ambiente e autoridade. Para empresas e investidores, isso multiplica os riscos de falsas ordens de pagamento, recomendações inexistentes e comunicados corporativos fabricados.

Há ainda o custo provocado pela intermediação informal da informação financeira. A CVM registrou que o número de influenciadores dedicados a investimentos mais que dobrou em 2022, passando de 255 no primeiro semestre para 515 no segundo.

A autarquia incluiu o tema entre os riscos emergentes e desenvolveu instrumentos para monitorar publicações e movimentos atípicos no mercado.

A democratização do conhecimento financeiro é positiva; o problema surge quando publicidade, recomendação, entretenimento e aconselhamento se confundem, sem transparência sobre remuneração, conflitos de interesse, qualificação ou riscos.

Os casos de manipulação mostram como a mensagem falsa pode alterar o próprio preço do ativo. Em 2022, a Securities and Exchange Commission acusou oito influenciadores de operar, por Twitter e Discord, um esquema de manipulação de ações estimado em US$ 100 milhões.

Em 2025, o Departamento de Justiça obteve o confisco de US$ 214 milhões relacionado a outro suposto esquema de pump and dump, no qual falsos consultores atraíam investidores pelas redes e prometiam ganhos expressivos; depois da valorização artificial e da venda pelos operadores, investidores perderam quase todo o capital aplicado.

Em 2026, a Justiça norte-americana declarou culpado o fundador da Citron Research por manipular ações por meio de campanhas públicas e obter ao menos US$ 21 milhões em lucros rápidos.

São exemplos distintos de uma mesma engrenagem: produzir uma percepção, induzir ordens de compra e monetizar o movimento antes que a verdade alcance o mercado.

A escala da exposição também pode ser medida antes mesmo da perda.

Em ação internacional concluída em 2026, a autoridade financeira britânica identificou 1.267 anúncios financeiros ilegais de influenciadores, com alcance mínimo de 2,33 milhões de contas; 66% vinham de pessoas ou empresas já incluídas em sua lista de alertas.

No ano anterior, a mesma autoridade informou ter bloqueado mais de 50 aplicativos, 1.600 sites e quase 20 mil promoções financeiras não conformes. Esses dados não equivalem automaticamente a prejuízos consumados, mas demonstram o tamanho do funil que abastece decisões potencialmente ruinosas.

Dark web hacker ciberataque Misto Brasil
Há um mercado no submundo da internet onde dados pessoais são negociados/Arquivo/TechTudo

O prejuízo que não aparece no extrato

As perdas diretas são apenas a parte visível. A desinformação também produz danos indiretos: aumenta despesas com segurança, verificação, seguros, contencioso, atendimento e recuperação de ativos; obriga instituições financeiras a endurecer controles; eleva falsos positivos e fricções em transações legítimas; reduz a confiança em canais digitais; e transfere para toda a sociedade o custo de operações criminosas.

Cada golpe bem-sucedido financia novas campanhas, compra bases de dados, aperfeiçoa roteiros e amplia a capacidade tecnológica dos fraudadores.

Empresas atingidas por boatos ou vídeos falsificados enfrentam oscilações reputacionais que podem repercutir em vendas, crédito e valor de mercado. Governos também pagam essa conta. A desinformação econômica sobre inflação, tributos, moeda, programas sociais ou instituições financeiras pode distorcer expectativas e produzir decisões coletivas ruins.

Em mercados, expectativa não é detalhe psicológico: influencia preço, consumo, poupança e investimento. Quando a percepção pública é deliberadamente manipulada, a mentira se converte em variável econômica.

Existe, por fim, uma perda distributiva. Pessoas com menor educação financeira, idosos, indivíduos emocionalmente vulneráveis ou pressionados por dificuldades econômicas tendem a sofrer mais quando promessas de ganho rápido encontram um ambiente de urgência e aparente consenso.

Grupos falsos simulam prova social: todos parecem ganhar, todos recomendam, todos exigem rapidez. A vítima não compra apenas um ativo inexistente; compra a sensação de estar ficando para trás. A economia da desatenção monetiza, assim, o medo de perder uma oportunidade.

Regulação, responsabilidade e soberania da atenção

A resposta não pode se resumir à recomendação de que o usuário “tenha cuidado”. Educação financeira e midiática são indispensáveis, mas não substituem deveres de governança.

Plataformas precisam responder com maior transparência sobre anúncios, impulsionamento, perfis reincidentes e critérios de recomendação; instituições financeiras devem aprimorar detecção, bloqueio cautelar, compartilhamento de sinais e mecanismos de devolução; reguladores precisam coordenar dados e competências; empresas devem adotar protocolos para confirmar ordens sensíveis fora do mesmo canal em que foram recebidas.

Com deepfakes, nenhuma decisão patrimonial relevante deveria depender exclusivamente de voz, imagem ou mensagem digital.

Também é necessário distinguir liberdade de expressão de exploração econômica da falsidade. Opiniões, críticas e controvérsias pertencem à democracia. Anúncios fraudulentos, identidades clonadas, rentabilidades inventadas e manipulações coordenadas constituem outra categoria: são instrumentos de captura patrimonial.

Quando uma plataforma lucra com a circulação remunerada de um anúncio, conhece os padrões de segmentação e dispõe de capacidade técnica para identificar reincidências, a discussão sobre responsabilidade não pode ser reduzida à neutralidade tecnológica.

A desinformação financeira revela, talvez com maior nitidez, a tese da Era da Desatenção: o lucro de alguns passa a depender da incapacidade de muitos de interromper, verificar e refletir.

Todos gritam, ninguém escuta e, nesse intervalo, alguém paga. Recuperar a atenção tornou-se, portanto, medida de proteção patrimonial. Antes de investir, transferir ou compartilhar, é preciso devolver tempo à decisão.

Quando o barulho ocupa tudo, o silêncio não é ausência. É o espaço econômico da prudência e, cada vez mais, uma forma de preservar dinheiro, liberdade e confiança.

  • O artigo teve o o uso de IA no auxílio das pesquisas de dados

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