Observadores leem a paulatina distensão das relações entre EUA e Brasil dentro do contexto das eleições presidenciais de outubro.
Por Misto Brasil – DF
Ao estilo de um trailer de filme épico de ação, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Marino Cabrera, narra uma história enobrecida sobre como o seu país, ao longo de 200 anos, deu as cartas da ordem política que regeria o “Novo Mundo”, impedindo a recolonização europeia das Américas e garantindo para si a hegemonia regional.
Sentado numa cadeira de madeira requintada e de frente para a câmera, ele apresenta um vídeo lançado, em agosto, pelo Departamento de Estado americano sobre a Doutrina Monroe, de 1823.
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“Na era moderna”, afirma, “a doutrina encontrou seu mais recente defensor no presidente [Donald] Trump.”
Sob a égide monroeísta, a Casa Branca vem impulsionando a ultradireita rumo às urnas e costurando alianças com seus governos ao redor do continente.
Mas também no Brasil, onde o Planalto reagiu com desconforto à produção audiovisual de cinco minutos, o intervencionismo à moda Donroe já deixou de ser especulação para virar realidade, apontam analistas ouvidos pela DW.
Observadores leem a paulatina distensão das relações entre EUA e Brasil dentro do contexto das eleições presidenciais de outubro.
Ao discursar diante da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas na terça-feira (22), o presidente Lula da Silva acenou de novo ao tema, sem citar Trump nominalmente.
“Num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas” na América Latina e no Caribe, disse, “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, antes de criticar “a ingerência externa em processos eleitorais” e a “divisão do mundo em zonas de influência.”
Se vencer o senador Flávio Bolsonaro, os EUA terão em Brasília mais um parceiro ideológico na região, depois de terem apoiado as vitórias de aliados em Colômbia, Honduras e Argentina. Uma das hipóteses mais ventiladas é que, caso contrário, os EUA poderão contestar os resultados das urnas brasileiras.
Pressão até a última hora
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já antecipou risco crítico de interferência eleitoral pelos EUA em relatório enviado ao governo e à Justiça Eleitoral, segundo a Folha de São Paulo.
“Trump já se posiciona de forma conflitiva em relação ao governo Lula, enquanto atores do seu governo, e ele próprio, aparecem ao lado da família Bolsonaro,” afirma Pedro Telles, professor da escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“Isso tende a se tornar mais agudo conforme o segundo turno se aproxima.”
Também o Instituto Vladimir Herzog, organização que atua em favor da democracia e dos direitos humanos, enviou cartas de alerta a autoridades em Brasília e ao secretário-geral da ONU, António Guterres. (Texto da DW)
