O gesto que ninguém esqueceu. A orientação que ninguém lembra. E a frase que escapou do julgamento da maioria.
Por Cinthya Telles
I. A memória que escolheram para você
Estamos às vésperas do segundo turno, e eu sei o que vai voltar: a pandemia. As mortes, os hospitais lotados, os mesmos recortes, os mesmos personagens, as mesmas acusações.
A pandemia foi uma tragédia sanitária. Não é propriedade eleitoral de ninguém.
Escrevo porque estive dentro dos hospitais. E porque me indigna ver alguns episódios se tornarem inesquecíveis enquanto outros perderam o direito de existir na memória pública.
Então eu pergunto: quem decidiu o que você ia lembrar?
II. Você se lembra da falta de ar?
Eu me lembro. Dos pacientes chegando com a saturação despencando. Dos rostos acinzentados. Das famílias esperando notícia. Do socorro que chegou tarde demais. Eu estava lá.
E você provavelmente se lembra de outra cena: Jair Messias Bolsonaro imitando uma pessoa com falta de ar. Exibida, compartilhada, comentada, transformada em símbolo.
Agora a pergunta que a televisão não fez: o que ele estava dizendo?
Ele criticava a orientação de esperar a falta de ar para procurar atendimento. E eu, como médica emergencista, afirmo sem hesitar: nesse ponto, ele estava certo. Esperar a falta de ar podia ser fatal.
III. O que a Medicina sabia e a televisão não contou
No início da pandemia, o médico Drauzio Varella orientou que as pessoas procurassem atendimento quando sentissem falta de ar. A orientação era inadequada.
A Covid provocava hipoxemia silenciosa: o paciente com oxigênio perigosamente baixo, sem sentir falta de ar proporcional à gravidade. Era possível estar gravemente doente sem sentir que estava sufocando.
Drauzio reviu a recomendação, e fez bem. É assim que a Medicina funciona.
Mas repare no que ficou. Quem apontava o perigo virou símbolo de desprezo pelas vítimas. O erro da orientação e a correção sumiram. A imagem ficou. A discussão médica desapareceu.
Quantas pessoas que condenaram aquele gesto sabem explicar o que é hipoxemia silenciosa?
Na minha leitura, naquele episódio quem estava do lado do paciente era ele. E foi tratado como o contrário.
IV. E o “ainda bem” de Lula?
Agora aplico o mesmo critério ao outro lado.
Lula, durante a pandemia, disse: “Ainda bem que a natureza […] criou esse monstro chamado coronavírus.”
Ele depois pediu desculpas e explicou que falava da importância do Estado. Registro a explicação, porque contexto vale para todos. Mas a frase foi dita enquanto famílias enterravam seus mortos e profissionais de saúde tentavam salvar vidas no limite.
Eu vivi aquilo. Por isso, o “ainda bem” me indigna. Na minha avaliação, foi uma das declarações mais insensíveis daquele período.
E aqui está a pergunta: por que o contexto da frase de Lula da Silva foi tão considerado, enquanto o contexto da crítica de Bolsonaro foi descartado?
Um gesto virou sentença permanente. Uma frase virou episódio superado. Mesmo peso? Mesma insistência? Mesmo julgamento?
V. Não é preciso mentir para manipular
Existe uma forma de moldar a opinião pública que não depende de inventar nada. Basta selecionar.
Escolher o trecho. Definir a manchete. Repetir a imagem mil vezes. Reduzir a outra explicação a uma nota.
A manipulação mais eficiente não está na mentira. Está na seleção das verdades.
É o poder de decidir quais acontecimentos serão lembrados e sob qual interpretação. Quando a indignação do público depende mais da frequência com que viu uma cena do que da gravidade dos fatos, o problema deixa de ser só jornalismo. Passa a ser democracia.
Por isso não aceito que a tragédia vire munição de campanha. A pandemia precisa ser discutida inteira, com todos os personagens e todos os contextos, e não só com os que favorecem um candidato.
Questionar quem informa também é exercer a democracia.
VI. A pergunta que ficou sem resposta
Volte àquela imagem. Bolsonaro imitando a falta de ar. Você se lembra perfeitamente, não é?
Mas sabia qual orientação ele estava criticando? Sabia que ela foi corrigida? Sabia que a Covid podia causar hipoxemia grave sem falta de ar evidente?
E se lembra, com a mesma clareza, de Lula dizendo “ainda bem” ao falar do coronavírus?
Assista ao vídeo completo. Leia a declaração inteira. Compare as explicações. Desconfie de qualquer narrativa que precise esconder uma parte dos fatos para convencer você da outra.
Eu estava na linha de frente e não aceito que a memória dessa tragédia pertença a políticos, partidos ou emissoras. A pandemia pertence à história do Brasil, e não à campanha de quem quer governá-lo.
O maior poder sobre uma sociedade não é fazê-la acreditar numa mentira; é escolher qual parte da verdade ela vai conhecer.
Quanto da sua opinião é realmente sua?
(Cinthya Telles é médica de Medicina de Emergência e atuou na linha de frente do atendimento durante a pandemia de Covid-19)
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