Suspeitas vão desde um esquema de rachadinhas no Rio de Janeiro (Alerj) a supostos vínculos com apostas esportivas.
Por Misto Brasil
Ao longo de seus 26 anos de vida pública, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) acumulou uma série de investigações.
As suspeitas vão desde um esquema de rachadinhas em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a supostos vínculos com apostas esportivas, passando por desvio de recursos públicos para o financiamento de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A trajetória política de Flávio começou ainda aos 19 anos. À época, ele ocupou um cargo de 40 horas semanais de assistente técnico na liderança do então PPB na Câmara dos Deputados, legenda pela qual seu pai, então deputado federal, exercia mandato.
Anos depois, reportagens chamaram atenção para o fato de que ele exerceu a função enquanto cursava Direito na Universidade Candido Mendes e realizava estágio na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, atividades que exigiam presença na capital fluminense.
Enquanto os casos relacionados às rachadinhas terminaram anulados por decisões das cortes superiores, novas frentes de investigação da Polícia Federal (PF) continuam em curso. A seguir, o que se sabe sobre cada uma delas e o que diz o senador e sua defesa.
O caso das rachadinhas
As investigações sobre o gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) surgiram após relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontarem movimentações consideradas atípicas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do parlamentar.
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) sustentou a hipótese de um esquema de rachadinha, prática em que assessores devolvem parte dos salários ao político.
As apurações se desdobraram em diferentes linhas, incluindonegociações imobiliárias com uso de dinheiro em espécie e a contratação de familiares do ex-policial Adriano da Nóbrega, apontado como membro de grupo de extermínio e líder da milícia Escritório do Crime, grupo especializado em assassinatos por encomenda.
Adriano foi homenageado duas vezes por Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, anos antes de ser expulso da PM por envolvimento com o jogo do bicho. Flávio empregou a mãe e a então esposa do ex-PM em seu gabinete na Alerj.
Uma das frentes da investigação tratou de uma franquia de uma rede de chocolates da qual Flávio era sócio. Promotores suspeitavam que a loja teria sido utilizada para lavar recursos provenientes do suposto esquema de rachadinha, apontando depósitos em dinheiro vivo considerados atípicos para o perfil do negócio. A investigação também examinou a origem dos valores utilizados para a aquisição da franquia e a movimentação financeira da empresa.
Contudo, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) anularam as provas obtidas durante as investigações, levando ao arquivamento das acusações. Os magistrados entenderam, entre outras coisas, que Flávio Bolsonaro possuía foro privilegiado, invalidando, assim, as decisões judiciais tomadas em primeira instância contra o político.
O que diz Flávio Bolsonaro: ao longo das investigações, o senador afirmou que eventuais irregularidades atribuídas a Queiroz teriam ocorrido sem seu conhecimento.
Também sustentou que os depósitos em espécie na franquia de chocolates eram comuns no varejo, que suas operações imobiliárias foram legais e declaradas aos órgãos competentes e que a contratação das parentes de Adriano da Nóbrega ocorreu por indicação de Queiroz.
Flávio também já declarou que sua proximidade com Adriano da Nóbrega se deu antes das acusações que o ligaram a atividades milicianas e afirma nunca ter participado ou apoiado organizações criminosas.
A investigação sobre o filme “Dark Horse”
A mais recente frente de apuração envolve o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, inquérito que tramita no STF. Flávio Bolsonaro é investigado por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas a aportes milionários atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Segundo documentos da investigação, Flávio teria atuado diretamente na busca de recursos para a produção e mantido interlocução frequente com Vorcaro. A PF apura o envio de recursos ao exterior destinados ao projeto e busca esclarecer a origem e o destino final dos valores.
A PF apontou uma “divergência contábil severa” entre os recursos enviados ao exterior e os valores que retornaram ao Brasil para financiar o filme. Segundo a investigação, mais de 12 milhões de dólares deixaram o país, mas apenas 2,8 milhões de dólares tiveram ingresso registrado no Brasil.
Mensagens obtidas pelos investigadores registram cobranças feitas por Flávio a Vorcaro sobre a liberação do financiamento. A investigação também examina a relação entre o senador e o banqueiro, incluindo encontros, viagens e o uso de aeronaves ligadas ao empresário.
O que diz Flávio Bolsonaro: inicialmente, o senador negou participação de Vorcaro no financiamento do filme. Posteriormente, admitiu ter buscado o banqueiro como investidor privado para a produção.
Ele afirma que o projeto foi financiado exclusivamente com recursos privados, defende “transparência total” sobre o caso e nega qualquer irregularidade. Segundo sua versão, encontros posteriores com Vorcaro tiveram como objetivo encerrar a relação comercial ou avaliar a necessidade de buscar novos investidores.
Ligações com Vorcaro e o Banco Master
A relação entre Flávio e Daniel Vorcaro passou a receber atenção dos investigadores para além do financiamento do filme. Reportagens e documentos analisados pela PF apontam contatos frequentes entre ambos, incluindo viagens e tratativas comerciais.
As suspeitas se concentram na possibilidade de que operações financeiras relacionadas ao filme e a outras iniciativas tenham sido utilizadas para movimentar recursos de forma irregular. A PF ainda busca determinar se o senador teve participação ou benefício em estruturas investigadas ligadas ao empresário.
O que diz Flávio Bolsonaro: o senador afirma que sua relação com Vorcaro estava ligada apenas à tentativa de captar recursos privados para Dark Horse e nega ter cometido ilegalidades. (Texto da Agência DW)
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