A população canina que vive próxima à usina apresentava diferenças em regiões do DNA relacionadas à reparação do material genético.
Por Felipe Espinosa Wang
O acidente na usina nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia. em 26 de abril de 1986, marcou o início de uma operação que obrigou milhares de pessoas a abandonar suas casas.
A área acabaria transformada em uma zona de exclusão de cerca de 2.600 quilômetros quadrados. Para muitas famílias, partir também significou deixar para trás seus animais de estimação.
Depois vieram os chamados liquidadores, encarregados de amenizar os efeitos da tragédia. Entre suas tarefas, estava a de sacrificar os animais que haviam permanecido no local.
Mas nem todos foram eliminados. Hoje, a zona continua sendo lar de várias centenas de cães. Acredita-se que muitos descendam daqueles animais de estimação abandonados, e que cerca de 30 gerações já se sucederam desde o acidente.
O curioso é que nem todos os cães de Chernobyl são iguais do ponto de vista genético. Em 2023, uma equipe de pesquisadores encontrou diferenças importantes entre os cachorros que vivem junto à usina nuclear e os da cidade de Chernobyl, a apenas 16 quilômetros de distância.
Ao examinar o DNA dos animais, os cientistas verificaram que os cães da cidade tinham muito em comum com cães da Rússia e da Polônia.
A população que vive próxima à usina apresentava diferenças em regiões do DNA relacionadas à reparação do material genético, segundo pesquisadores da Universidade Estadual da Carolina do Norte.
A descoberta alimentou uma explicação um tanto inquietante. A radiação poderia ter provocado mutações capazes de explicar aquelas diferenças genéticas? Como era de se esperar, a notícia viralizou, mas uma pesquisa de 2024 esfriou essa suspeita: os cientistas não encontraram indícios de que os cães próximos à usina tivessem acumulado mais mutações do que os da cidade.
Deriva genética ou seleção natural
Sem evidências de que as mutações explicassem aquelas diferenças, os pesquisadores continuaram em busca de respostas. Agora, um novo estudo publicado na revista Genes utilizou os genomas de 63 cães, 33 da área da usina e 30 da cidade, para investigar outros dois mecanismos evolutivos.
Um deles era a deriva genética, pela qual algumas variantes genéticas se tornam mais ou menos frequentes por acaso, especialmente em populações pequenas e isoladas. O outro era a seleção natural, que favorece as variantes genéticas que aumentam as chances de sobrevivência e reprodução.
A primeira hipótese tinha algum respaldo histórico. Segundo o IFL Science, as análises sugerem que a população próxima à usina diminuiu entre 35 e 40 gerações atrás, algo compatível com o acidente e o posterior sacrifício dos animais.
No entanto, os pesquisadores não encontraram nesses cães a perda de diversidade genética que seria esperada se a deriva genética fosse a principal explicação. As estimativas gerais também não mostraram diferenças significativas entre o tamanho efetivo dessa população e o da cidade.
Eles se adaptaram à radiação?
Encontrar indícios de seleção, porém, não equivale a demonstrar que os cães tenham se adaptado à radiação. Nesse sentido, o geneticista Matthew Breen, coautor do estudo, levanta a hipótese de que os animais que sobreviveram às primeiras exposições talvez já possuíssem variantes genéticas que lhes conferiam alguma vantagem.
Essas variantes poderiam então ter se disseminado entre seus descendentes sem que fosse necessário o surgimento de novas mutações. Mas ainda não está claro quais condições favoreceram esse processo.
Jim Smith, pesquisador da Universidade de Portsmouth que não participou do estudo, duvida que a radiação seja a responsável por essas diferenças. Segundo explicou à revista Popular Mechanics, os dois grupos de cães também têm origens distintas e podem diferir na alimentação, nas doenças às quais estão expostos e no contato com outros contaminantes.
A isso se soma o fato de que não existem evidências laboratoriais indicando que a radiação recebida por esses animais seja suficiente para influenciar de forma importante a seleção natural. Por isso, Smith considera praticamente impossível determinar quanto dessas diferenças se deve à radiação e quanto a outros fatores em um ambiente como Chernobyl.
Mesmo assim, a questão das mutações também não está completamente encerrada. Timothy Mousseau, coautor do estudo, continua investigando seu possível papel e compara cães das ilhas Marshall e do antigo campo de testes soviético de Semipalatinsk, onde foram realizados mais de 450 testes nucleares. Ele também quer descobrir quando surgiram determinadas mutações nos cães de Chernobyl e espera obter respostas dentro de um ou dois anos.
Por enquanto, não foi demonstrado que os cães de Chernobyl tenham desenvolvido uma resistência especial à radiação. Seu DNA oferece pistas sobre como as populações mudam em um ambiente contaminado, mas a principal questão continua sem resposta: o que realmente favoreceu sua sobrevivência e qual foi, de fato, o papel do acidente nuclear nesse processo?
(Felipe Espinosa Wang é repórter da Agência DW)
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