O caldo entornou, porém, quando foi aventada a ideia de uma espécie de “checagem paralela” da apuração dos votos na eleição
Por André César – SP
Uma das peculiaridades do processo eleitoral ora em curso é a dificuldade de diálogo entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e as Forças Armadas. O último ato desse drama – que, espera-se, não acabe em tragédia – deu-se na segunda-feira, 12 de setembro.
Aos fatos. Após uma aparente concórdia entre as partes, estava prevista uma reunião entre o presidente da Corte, ministro Alexandre de Moraes, e o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira. Em pauta, a proposta dos militares para a realização de teste de integridade das urnas eletrônicas com biometria de eleitores. Tudo muito civilizado e, em tese, sem ruídos.
O caldo entornou, porém, quando foi aventada a ideia de as Forças Armadas realizarem uma espécie de “checagem paralela” da apuração dos votos na eleição. Tudo fora do script e, assim, o resultado final não surpreendeu. A reunião foi sumariamente cancelada.
Não é de hoje que o governo de Jair Bolsonaro (PL) ataca o sistema eleitoral brasileiro, incluindo ministros do TSE e as urnas eletrônicas, chamando a atenção para possíveis fraudes no pleito. O discurso, colocado nas ruas mesmo antes de sua eleição em 2018, tem objetivo claro – manter seu eleitorado mobilizado e, em caso de derrota em outubro, levantar obstáculos para o vencedor. A situação pode ficar ainda mais complicada.
De sua parte, a Corte eleitoral tem trabalhado na tentativa de manter todo o processo sob a mais absoluta transparência. Testes e mais testes foram realizados, atestando a segurança das urnas. O combate às fake news, potencial fonte de crises, entrou no radar e na agenda do Tribunal. Por fim, o Brasil tem recebido observadores dos mais diversos países e entidades, dentro de um amplo processo democrático.
Já se tornou chavão, mas não custa insistir no tema – aos militares compete a defesa da nação, não cuidar de eleições. Ao misturar as estações, as Forças Armadas apenas geram ruídos desnecessários. E prestam um desserviço à nossa já não tão jovem, mas ainda frágil democracia.
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