Em desvantagem na disputa para o segundo turno presidencial, Bolsonaro ainda demonstrou ser um cabo eleitoral influente
A “onda de direita” que varreu o Legislativo brasileiro nas eleições gerais de 2018 não foi um evento passageiro, como demonstram os resultados eleitorais para a Câmara e Senado deste domingo (02).
A nova composição das duas Casas indica que a extrema direita foi bem-sucedida em fincar raízes na paisagem política brasileira e conseguiu manter um eleitorado fiel, mesmo com todos os problemas que a administração de Jair Bolsonaro (PL) enfrentou nos últimos quatro anos.
Apesar de aparecer em desvantagem na disputa para o segundo turno presidencial, Bolsonaro ainda demonstrou ser um cabo eleitoral influente, não só para eleger aliados, mas também para punir direitistas que romperam com o Planalto.
Vitórias bolsonaristas no Senado
Bolsonaristas “raiz” e aliados do Centrão que colaram em Bolsonaro conquistaram 14 das 27 vagas no Senado. Apenas oito candidatos que receberam endosso de Lula conseguiram cadeiras na Casa – seis deles da região Nordeste. Com o resultado, só o PL de Bolsonaro passará a contar com a maior bancada da Casa: 14 senadores, cinco a mais do que a última composição. É a primeira vez desde a redemocratização que o MDB não vai ter a maior bancada.
Caso supere Lula no segundo turno e seja reeleito, Bolsonaro poderá contar com uma base de 24 senadores, levando em conta a quantidade de senadores bolsonaristas ou aliados que já ocupam vagas na Casa.
A partir de 2023, o Senado vai contar com uma série de bolsonaristas “puro sangue“, como a ex-ministra Damares Alves, eleita pelo Distrito Federal, o atual vice-presidente Hamilton Mourão, que garantiu vaga no Rio Grande do Sul, e Jorge Seif, ex-secretário da Pesca que vai representar Santa Catarina. Em São Paulo, o ex-ministro Marcos Pontes (PL), derrotou o ex-governador Márcio França (PSB), contrariando as pesquisas que apontavam favoritismo do socialista.
A eleição da fundamentalista cristã Damares recebeu apoio decisivo da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que ignorou os arranjos do PL, o partido do seu marido, que havia lançado a ex-ministra Flávia Arruda. Já o caso de Seif surpreendeu, já que sua votação foi 20 pontos superior ao captado em uma pesquisa divulgada na sexta-feira.
Outro aliado do presidente eleito neste domingo foi Magno Malta (PL-ES), outro cristão fundamentalista, que havia amargado uma derrota em 2018 e vai voltar à Casa após um intervalo de quatro anos.
Bolsonaristas e aliados do Centrão ampliam espaço na Câmara
O casamento do bolsonarismo com o PL, uma sigla tradicional do Centrão, rendeu frutos. O partido conseguiu eleger a maior bancada da Câmara, segundo projeções iniciais. A bancada da legenda pode ter 99 deputados. O número supera os 52 parlamentares do PSL que Bolsonaro havia impulsionado em 2018. A nova bancada do PL será a maior na Casa em 24 anos.
Já a federação formada por PT, PCdoB e PV deve ser a segunda maior força da Casa, com 79 deputados, segundo cálculos do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Só os partidos do Centrão, formados por PL, União Brasil, PP e Republicanos devem eleger 229 deputados federais – 48% da Câmara.
Na Câmara, o bolsonarismo ainda garantiu uma marca simbólica: a maior votação individual de um deputado federal no país, que foi obtida em Minas Gerais pelo vereador Nikolas Ferreira (PL-MG), de 26 anos, um influencer bolsonarista das redes sociais.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, dos quatro deputados federais mais votados, três são bolsonaristas “puros”: Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e o ex-ministro Ricardo Salles. Eduardo, no entanto, apesar de ter sido o terceiro mais votado no estado, perdeu mais de 1 milhão de votos em relação a 2018. No total, o PL de Bolsonaro conquistou 17 vagas das 70 de São Paulo na Câmara Federal. Já o PT garantiu 11.
No Rio de Janeiro, outra estrela do bolsonarismo, Hélio Lopes, que desta vez concorreu com seu próprio nome e não como “Hélio Bolsonaro“, foi reeleita para a Câmara – embora com votação menor que em 2018.
O presidente ainda conseguiu eleger como deputado federal o ex-ministro Eduardo Pazuello, que se notabilizou por sua gestão desastrosa à frente da Saúde durante a pandemia. Estreante na política partidária, o general foi o segundo mais votado no estado, passando a marca de 200 mil votos. Em todo o estado do Rio o PL garantiu 11 das 46 vagas em disputa no estado.
No Rio Grande do Sul, dois bolsonaristas também apareceram no topo do ranking dos eleitos para a Câmara. Aliados do presidente também foram os mais votado para a Câmara no Distrito Federal, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.
“Bancada da Lava Jato” vence após se reaproximar de Bolsonaro
Além dos bolsonaristas, representantes da “Lava Jato” garantiram vitórias expressivas neste domingo.
O ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) foi eleito senador pelo Paraná, graças em grande parte à sua estratégia de cortejar o eleitorado bolsonarista e apostar no discurso antipetista.
Ao longo da campanha, Moro minimizou sua saída estrondosa do governo Bolsonaro em 2020 e preferiu focar nos “pontos em comum” com o presidente. “Eu e o presidente Bolsonaro temos um inimigo em comum”, disse Moro em diversos momentos da sua campanha.
No mesmo estado, o ex-procurador Deltan Dallagnol (Podemos) foi o deputado federal mais votado.
Até mesmo a mulher de Moro, Rosângela (União Brasil), garantiu uma vaga de deputado federal por São Paulo.

