A autorização sanitária concedida pela Rússia ao Brasil é movimento estratégico com implicações econômicas relevantes no médio e longo prazo
Por Misto Brasil – DF
A consolidação da abertura do mercado na UEE é fruto de uma ação conjunta entre o Ministério das Relações Exteriores e do Ministério da Agricultura e Pecuária. Com ela, o agronegócio brasileiro alcança 386 aberturas de mercados desde 2023.
Composto por Rússia, Belarus, Cazaquistão, Armênia e Quirguistão, a UEE tem uma população total de 185 milhões e, no ano passado, foi o destino de mais de US$ 1,4 bilhão em receitas em produtos agropecuários exportados pelo Brasil.
Em entrevista à Sputnik Brasil, economistas apontam como a abertura do mercado euroasiático contribui para a economia brasileira.
Renan Silva, gestor da Bluemetrix Asset, afirma que o aprofundamento das relações comerciais do Brasil com a UEE traz diversos benefícios estratégicos, sendo o primeiro deles a diversificação de mercados, o que contribui para reduzir a dependência de parceiros tradicionais como EUA, China e União Europeia (UE), criando uma espécie de proteção.
“A outra questão importante é que você reduz as pressões sobre a regulação dos países ocidentais, uma vez que a dinâmica regulatória [da UEE] é diferente da dos países ocidentais, o que pode representar menos barreiras não tarifárias relacionadas a questões ambientais ou de sustentabilidade que frequentemente impactam nossas exportações — em especial, a Europa e os EUA”.
Ele afirma que há também um contrapeso com relação às pressões geopolíticas, pois em um mundo cada vez mais multipolar “manter relações comerciais equilibradas também pode deixar sua matriz um pouco mais segura”.
Somado a isso, Silva acrescenta que há o aspecto da complementariedade econômica, uma vez que os países daquela região “são fortes em alguns setores agrícolas, como trigo, e deficitários em outros nos quais o Brasil é bastante competitivo, como proteína animal, café e açúcar”.

Transferência de tecnologia e valor agregado
Renan Silva afirma que o aumento do poder aquisitivo, sobretudo na Rússia e no Cazaquistão, impulsiona a demanda por produtos alimentícios, o que é muito bom para o Brasil.
“Também tem que se considerar que os investimentos chineses na Iniciativa Cinturão e Rota […] também estão melhorando as conexões logísticas na região, potencialmente reduzindo os custos de transporte para os produtos brasileiros. Isso também é muito relevante. As sanções econômicas impostas à Rússia, por exemplo, também reduziram muito a presença dos norte-americanos na região, abrindo muito espaço para os nossos produtos”.
Silva aponta que essa parceria entre Brasil e UEE também pode ser potencializada, uma vez que haja a autorização para exportar subprodutos destinados à indústria farmacêutica, “o que representaria uma oportunidade para exportar itens com maior valor agregado, indo um pouco além das commodities tradicionais”.
“Também pode ocorrer um ganho de transferência de tecnologia, principalmente por parte da Rússia, que é muito avançada em biotecnologia agrícola e fertilizantes, o que pode também ser um bom ponto de troca de tecnologia, de cultura, e que pode ajudar o Brasil mais ainda na questão da competitividade no setor agrícola”.
Ele acrescenta que existem também os investimentos cruzados das relações em infraestrutura e processamento no Brasil que podem atrair países da Eurásia, uma vez que esses setores ainda são deficitários na região.
“A gente tem itens assim que são bem subdesenvolvidos, como os silos. Temos uma deficiência de silos, matriz rodoviária, cabotagem, e tudo requer muito investimento, empresários e, até mesmo, os fundos soberanos. E os governos daquela região podem ter interesse de estar investindo na nossa infraestrutura também.”
Hugo Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, afirma que a autorização sanitária, concedida pela Rússia ao Brasil, representa mais do que um simples avanço comercial. Segundo ele, trata-se de um movimento estratégico com implicações econômicas relevantes no médio e longo prazo para o setor agroindustrial brasileiro.
Ele frisa que os números justificam o entusiasmo, apontando a população de cerca de 185 milhões, e o mercado de mais de US$ 1,4 bilhão (R$ 7,6 bilhões) em produtos agropecuários.
“A emissão do certificado sanitário amplia o leque de produtos elegíveis à exportação, especialmente em um nicho de alto valor agregado: o de insumos biofarmacêuticos. Subprodutos como glândulas, enzimas e tecidos animais utilizados para a produção de hormônios e outros extratos terapêuticos podem atingir preços significativamente superiores aos de commodities tradicionais, aumentando a rentabilidade por unidade exportada”.





















