Pesquisa científica confirma importância ecológica da anta

Anta fauna brasileira Misto Brasil
A anta é um animal que consome frutas e por isso é considerada a jardineira da floresta/Charles Sharp/Wikimedia Commons
Compartilhe:

O estudo representa no campo da ecologia da restauração, ao quantificar de forma precisa o impacto do processo de endozoocoria

Por Lucas George Wendt – RS

Sementes ingeridas por antas (Tapirus terrestris) podem germinar com taxas mais altas e em menos tempo do que aquelas que simplesmente caem no solo sob as árvores-mãe.

Embora a dispersão de sementes por antas já fosse conhecida desde os anos 1980, o novo estudo buscou aprofundar a análise da viabilidade germinativa e da velocidade de brotação das sementes submetidas à digestão.

A constatação é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicado na revista científica Acta Amazonica em 27 de junho de 2025.

O trabalho ressalta a importância ecológica da anta — o maior mamífero terrestre da América do Sul — como agente natural de regeneração florestal, especialmente em contextos de degradação ambiental.

O estudo representa no campo da ecologia da restauração, ao quantificar de forma precisa o impacto do processo de endozoocoria, a dispersão de sementes por meio da ingestão por animais, sobre o tempo e a taxa de germinação.

Além de confirmar que as sementes sobrevivem à passagem pelo intestino das antas, os pesquisadores demonstraram que esse processo natural pode aumentar a eficiência germinativa de várias espécies nativas.

A anta é um mamífero de hábitos solitários e noturnos, amplamente distribuído na América do Sul, mas ameaçado em diversas regiões devido à perda de habitat, caça e atropelamentos.

Por se alimentar principalmente de frutos, folhas e brotos, ela é importante como frugívoro e dispersor de sementes. Cada indivíduo pode consumir centenas de frutos por dia e defecar em locais distantes das árvores de origem, o que ajuda a quebrar o padrão de agregação de plântulas e a promover a diversidade vegetal.

“A anta é o último grande frugívoro terrestre da América Latina. Seu desaparecimento representaria a perda de um elo fundamental para o ciclo de regeneração de muitos ecossistemas tropicais”, afirma o biólogo Mateus Marques Pires, um dos coautores do artigo. Pires integra o Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento da Univates e atua na interseção entre ecologia e conservação.

A coleta de dados foi realizada entre janeiro de 2021 e dezembro de 2022, em uma área de preservação permanente na zona de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado, no estado do Mato Grosso. A bióloga Lucirene Pinto, doutoranda da Univates, visitou periodicamente 140 latrinas utilizadas por antas — locais que esses animais usam repetidamente como “banheiros naturais”.

Em 88% das amostras fecais coletadas havia sementes intactas.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores alertam que a atuação das antas como restauradoras depende da conservação de seus habitats e da conectividade das paisagens. Em muitas regiões do Brasil, a fragmentação florestal e as barreiras impostas por rodovias e monoculturas reduzem o deslocamento desses animais, limitando sua capacidade de dispersar sementes.

Outro desafio está na escassez de dados sobre o comportamento das antas em diferentes biomas e épocas do ano. A ideia é expandir o estudo para outras regiões e avaliar se o mesmo padrão se repete em escalas maiores.

PARTICIPAÇÃO DO LEITOR

Participe desta discussão

Compartilhe sua opinião sobre este assunto. As participações passam por análise editorial antes de qualquer utilização no site.

Seu e-mail não será publicado.
Entre 20 e 3.000 caracteres.

Assuntos Relacionados

Siga o Misto Brasil

Acompanhe em todas as redes

Notícias, vídeos e destaques em tempo real. Escolha sua rede favorita.

Dica: acompanhe também pelo WhatsApp para receber atualizações rápidas.