A professora Suzy dos Santos, da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenadora do Grupo de Pesquisa Política e Economia da Informação e da Comunicação, concedeu uma entrevista onde analisa a mídia e o poder político no Brasil e sobre os novos rumos dessa relação. Fizemos um resumo dessa entrevista feita pela repórter Helena Borges, do The Intercept Brasil.
Veja os principais pontos
Em 1985, você tem um marco: é a primeira vez que um empresário de comunicação é convidado a indicar o ministro das Comunicações. A partir da hora em que Roberto Marinho indica Antonio Carlos Magalhães, o ministro se faz radiodifusor – e não era. Ele dá outorgas para ele mesmo, o próprio presidente da República se dá outorgas e constitui uma rede de televisão; todos afiliados a essa mesma grande corporação.
No último dia de mandato de Sarney e ACM, eles concedem 1.068 concessões, o dobro do que já existia antes, muitas delas vinculadas ao até então PFL. No período FHC [1995-2003], isso mais do que dobra, com [muitas concessões com] vínculos com o PSDB.
Nos oito anos de governo Lula e nos 5 anos de governo Dilma, o PT não se tornou um grande proprietário de rádio e televisão, como aconteceu com o PFL, PMDB e PSDB nos mandatos anteriores. No entanto, nesse período, observa-se uma pulverização muito forte da Rede Record, há um investimento no aumento das redes religiosas.
A opção do PT, em todos os seus mandatos, foi de jamais enfrentar a Globo ou qualquer proprietário. Não mudou a legislação, não criou mecanismos de diversidade. Se, em alguns outros segmentos, a gente teve mudanças de tônica, em política de comunicação não há uma mudança de tônica desde 1985. A tônica sempre foi de fazer um acordo e respeitar as vontades do circo midiático.
O exercício político no Brasil, de 1985 para cá, esteve sempre atrelado a concessões de rádio e televisão e negociações que envolvessem comunicação. O cara começa a ter um pouco de dinheiro num lugar, começa a ter um pouco de poder em qualquer município, e a primeira coisa que ele faz é contratar alguém para fazer um portal para ele. Depois, quando ele tem alguma visibilidade, consegue negociar com um deputado estadual e monta uma rádio. Depois compra uma televisão, e aí monta seu feudo. Esse sistema está profundamente arraigado e articulado de tal forma que o sistema midiático e o sistema político, hoje, não sobrevivem sem essa simbiose.
O que será dito no jornal na hora do almoço e o que será dito no programa religioso de aconselhamento, à meia-noite, está diretamente ligado aos interesses dos deputados federais que são apresentadores. E quase todos os deputados mais votados nas últimas legislaturas são apresentadores. Desses, a gente tem que destacar o Celso Russomano, que está no ar [no programa “Hoje em Dia”, da Record] e na legislatura [deputado federal pelo PRB-SP] ao mesmo tempo. Identificamos 168 parlamentares na Câmara dos Deputados diretamente ligados a veículos de comunicação.
O que é dito nos meios de comunicação passa pelo crivo partidário e pelo crivo das elites. São majoritariamente pautados pelos interesses empresariais, não pelos interesses sociais, menos ainda pelos interesses históricos ou de mudança social no Brasil. Então, se você olha a programação, é interessante perceber como se articula o discurso para uma voz única. O sistema midiático brasileiro, há muito tempo, tem uma hegemonia de uma voz quase em uníssono. São concorrentes às vezes, empresas que competem pela audiência. E esse discurso não é exclusivo do jornalismo. O entretenimento produz sentido de uma forma muito mais sutil e muito mais profunda.
O discurso único acontece em grandes pautas e grandes interesses. A reforma trabalhista é considerada, assim como a previdenciária, uma grande pauta, necessária para se tocar as mudanças que se pretendem. Mas não há perspectiva para a eleição de 2018 de um grande candidato de um bloco único. É diferente do que se formou em torno de FHC em 1994. Ali, você tinha um bloco único em torno de um candidato. Assim como, em um certo momento, todos estavam com o Lula. Mas não há isso até agora. Existe inclusive uma competição. Pode acontecer de a Globo estar com um candidato e o Edir Macedo, junto do PRB, estar com outro.
A Record, por conta da base material de Edir Macedo, tem uma base bem mais marginal que a da Rede Globo, da Band, da Folha… Tem um bloco do eixo Rio-SP vinculado à mídia mais tradicional que vai, sim, com discurso único, associado principalmente à pauta empresarial.























