Com quatro décadas de atuação, Inabra vai apoiar jovens

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Engenheiro Ronald Barbosa é o prersidente do Instituto Nacional Afro-Brasileiro /Divulgação
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Presidente do Instituto Nacional Afro-Brasileiro, Ronald Barbosa, falou nesta entrevista sobre os novos propósitos da entidade

Por Sionei Ricardo Leão – DF

No último dia 23 de setembro a diretoria do  Instituto Nacional Afro-Brasileiro (Inabra) celebrou os 40 anos de existência do instituto com um jantar em Brasília.

Foram convidadas pessoas que conhecem a trajetória e as que tomaram mais recentemente conhecimento do que se propõe a instituição.

Evento portanto bem a propósito das palavras do presidente Ronald Barbosa, ou seja, refletir sobre esse passado de devotamento ao letramento das relações raciais e as perspectivas para os próximos anos num contexto nacional e internacional singular.

O que motivou a criação do Inabra há quarenta anos?

A aproximação do centenário da abolição da escravatura e uma avaliação da situação do negro no Brasil motivou que alguns amigos criassem nova discussão dessa tratativa sem viés ideológico partidário que buscava a construção de um socialismo baseado apenas na luta de classes, onde a questão racial fosse tratada apenas como base de um racismo.

Qual foi a principal inspiração?

A Frente Negra Brasileira serviu como modelo a ser trabalhado, já que ela se preocupava no combate ao racismo, com enfrentamento direto a instituições racistas e ao mesmo tempo melhorar a formação da população negra no quesito educação.

Por outro lado, sabíamos que a base de formação da sociedade brasileira tinha como fundamento a exploração de serviços por concessão pública, autorizada, e crescimento social intransponível para o povo negro e que seria respeitada por toda a estrutura política. Isso nos motivou discutir e criar o Inabra para que conduzíssemos o trem da nossa transformação. Restava escolher nosso maquinista.

Qual o significado desses 40 anos de existência do instituto?

Acho que 40 anos é um bom tempo para corrigirmos rotas, renovarmos gerações, para amadurecermos nossa visão sobre a nossa sociedade e criarmos planos que possam realmente ajudar nossos jovens, todos os jovens a realmente ajudar o desenvolvimento de nossa nação.

Até 40 anos de idade, Moisés viveu no Egito. Ficou escondido no deserto de Midiã. Estava pronto para ajudar na libertação do povo hebreu das mãos dos egípcios e essa travessia do deserto durou mais 40 anos. Em 40 anos após ter sido anunciado, Davi começou a reinar em Israel.

Para nós do Inabra, após 40 anos, muitos dos nossos já foram, como Dr. Orlando Costa, o primeiro presidente, Paulo Vilhena, José Raimundo Brito, o Warny Souza, o Dr. Natalino Cavalcanti e a Dra. Amália Portela. Deixaram para todos nós uma marca de união e busca constante de participação no desenvolvimento do Brasil.

Que lições os membros e diretores colheram nessas quatro décadas de atuação?

Logicamente, que a principal lição é observar que em todo mundo as pessoas sempre reagirão e resistirão a situações adversas causadas pela própria natureza ou por políticas de governos que impedem o crescimento de parte ou do total de sua população.

Lições devem ser aprendidas e não colhidas. Por ser a carne mais barata do mercado, como dizia Elza Soares, muitos partidos e políticos apenas têm interesse no seu voto momentâneo, pouco se importando sobre sua reais necessidades ou condições de vida. Outra lição que consideramos de grande valia são os indicadores do crescimento.

Esses indicadores estão refletidos no país, através da produção, do consumo e da poupança. Se a maioria da população brasileira, que é negra, participa em 30% da produção nacional, em 10% do consumo nacional e em 5% da poupança nacional, pode-se efetivamente dizer que não há desenvolvimento no país.

O que existe é uma concentração exagerada de poder econômico, político e cultural. É isso que queremos para o nosso País? Está aí uma terceira lição.

A seu ver qual foi a maior dificuldade enfrentada pelo instituto?

Uma grande dificuldade começou com a Assembleia Nacional Constituinte de 1987. Naquela época era visível ‘bunkers’ de toda classe empresarial serem montados em Brasília, a fim de trazer suas reivindicações para serem ‘incorporadas’ à Nova Constituição.

O Movimento Negro, de uma forma geral, sem recursos financeiros, não tinha como participar do grade ‘lobby’ nacional, por isso a pauta dependia da boa vontade de sindicatos e políticos, mas em sua maioria era rejeitada.

O instituto através de sua diretoria se mobilizava buscando criar pautas comuns em estados, a fim de alertar o movimento negro dos locais, ou mesmo ajudar na construção de novas pautas. Mas grande parte do movimento estava fortemente ligada a sindicatos e isso não era suficiente para terem suas pautas atendidas, mas ajudou futuramente na condução da maioria das políticas públicas.

Posteriormente à chamada Constituição do Povo, a lentidão para gerar a documentação e aprovar pautas no Congresso. Essa sem dúvida foi a maior dificuldade.

Qual a sua maior esperança para os anos vindouros?

Cabe a nós mostrarmos a autoridades que o desenvolvimento não cresce sem que haja valorização dos vetores culturais, dos vetores políticos e vetores econômicos. Na falta de incentivo, o desenvolvimento muda apenas de direção. Nós sempre trabalhamos com esperança, pois a certeza das coisas é o que alimenta a nossa fé.

A nossa maior esperança é ver o Congresso Nacional forte, independente e disposto a ajudar no desenvolvimento do nosso país, com legislação inclusiva.

Acredito que a continuidade das ações afirmativas através de cotas deve atender o pleito de participação no desenvolvimento do país, dando oportunidade nas próximas concessões de alcançarmos um nível de consumo e de poupança que represente e demonstre que 60% da população (negros e pardos) possam participar do desenvolvimento pleno do Brasil.

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