Leilão de consignado: inovação, mas com lacunas reais

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O uso da tecnologia reduziu o número de atendimento nos guichês da instituição/Arquivo/INSS
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O crédito consignado do INSS movimenta R$ 278 bilhões em contratos ativos e representa cerca de 40% do saldo total dessa modalidade no país

Por Túlio Matos – SC

A proposta de modernizar o crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS é, sem dúvida, necessária. No entanto, quando inovação é implementada sem considerar a diversidade de perfis do público atendido, ela corre o risco de ampliar desigualdades em vez de reduzi-las.

Recentemente, o INSS anunciou a possibilidade de contratação de empréstimos consignados por meio de um modelo de leilão.

A lógica é simples, em vez de o beneficiário ser abordado diretamente por instituições financeiras, os bancos competem entre si para oferecer a melhor taxa. A oferta vencedora é apresentada ao consumidor, reduzindo o assédio comercial e estimulando a concorrência.

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O debate não é pequeno. O crédito consignado do INSS movimenta R$ 278 bilhões em contratos ativos e representa cerca de 40% do saldo total dessa modalidade no país, segundo dados levantados pelo Banco Central. Ou seja, esse é um mercado de grande escala, em que pequenas mudanças podem afetar milhões de beneficiários em um país continental, com desigualdade de infraestrutura e acesso digital.

Em teoria, o leilão oferece condições mais vantajosas para quem contrata, promovendo competição entre as instituições financeiras e potencial redução de taxas.

Na prática, o processo exige que o aposentado acesse um aplicativo, manifeste interesse e aguarde ser contatado para receber um link de contratação.

Essa experiência não atende a todos os perfis de clientes. Muitos consumidores valorizam a conveniência, buscam atendimento humanizado e, em alguns casos, preferem presença física para se sentirem seguros ao contratar crédito. Além disso, limitações de conectividade e familiaridade com tecnologias digitais podem tornar o processo pouco acessível para parte do público-alvo.

O leilão atende a um público específico, mas tratá-lo como única opção revela uma visão limitada das necessidades reais dos aposentados. Reduzir canais de atendimento ignora as particularidades de cada beneficiário e desconsidera a diversidade de perfis e expectativas. Para garantir que todos possam contratar crédito de forma segura e adequada, é fundamental que alternativas presenciais, consultoria especializada e canais digitais simplificados coexistam.

A regulação precisa equilibrar inovação e acessibilidade. O leilão pode reduzir taxas e promover concorrência, mas não substitui produtos adaptados às diferentes necessidades dos beneficiários. A experiência do consumidor deve ser prioridade, e não apenas o formato da contratação ou o valor da taxa.

O leilão é uma alternativa válida, mas não pode ser a única via de contratação. Um mercado saudável oferece múltiplas possibilidades, respeitando a diversidade de perfis, necessidades e expectativas. Ignorar essas questões é desconsiderar o direito de milhões de aposentados e pensionistas a um crédito seguro e acessível.

(Túlio Matos é CEO e cofundador da fintech iCred e tem formação executiva em Negociação pela University of Michigan)

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