Copa do Mundo: Tunísia, Egito e a Primavera Árabe

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Equipe do Egito comemora o gol na partida de 1 a 1 contra a Bélgica/Fifa
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A Primavera Árabe trouxe profundas modificações em todos os campos da vida nos dois países (mas não só, lembremos), inclusive no futebol

Por André César – DF

O ano era 2010, o mês dezembro. No interior da Tunísia, um jovem ateou fogo ao próprio corpo em protesto contra as precárias condições de vida vigentes no país. O ato de desespero extremo foi o estopim para o movimento que viria a ser conhecido como “Primavera Árabe”.

No poder desde o final da década de oitenta do século anterior, o então presidente Ben Ali renunciou e fugiu para o exterior. Uma radical mudança se fez presente.

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No quase vizinho Egito, o impacto foi imediato. A população saiu às ruas e, em fevereiro de 2011, o até então onipresente presidente Hosni Mubarak foi obrigado a deixar o poder, após trinta anos de um mandato à base de mão de ferro. Outra mudança radical.

Sem entrar no mérito do movimento, é inegável que a Primavera Árabe trouxe profundas modificações em todos os campos da vida nos dois países (mas não só, lembremos), inclusive no futebol. Novos ares, novas possibilidades – e mais participações em Copas do Mundo para tunisianos e egípcios.

No caso do Egito, após marcar discreta presença em duas edições (1934 e 1990), o país retomou certo protagonismo no continente africano e se classificou em 2018 e 2026. O grande nome desse período, e possivelmente de toda a história do esporte na terra dos faraós, é Mohamed Salah, também grande ídolo do Liverpool.

O jogador é o retrato acabado dos novos tempos, uma autêntica referência.

Também a Tunísia viu o quadro mudar significativamente. Após quatro participações (1978, 1998, 2002 e 2006), o país norte-africano chegou a outras três edições, dessa vez consecutivas – 2018, 2022 e 2026. O caso tunisiano tem uma peculiaridade: em 1978, a seleção foi a primeira africana a conquistar uma vitória em um Mundial, anotando 3 a 1 sobre o México.

Um feito sem dúvida histórico, que não mais se repetiu. De todo modo, o futebol do país ganhou competitividade extra no continente.

Ainda sobre a Tunísia, é fato que a população é apaixonada pelo velho esporte bretão, e esse humilde escriba é testemunha disso. No início de 2007 (antes, portanto, da Primavera Árabe), conversando com um taxista local, descobri um fã incondicional do goleiro brasileiro Félix, tricampeão em 1970.

Mais tarde, comprando o uniforme da seleção nacional, vi um pôster gigante da seleção canarinho, com Pelé e companhia. E, tal qual o Brasil, o que se vê são bares lotados (barulhentos) em dias de jogos.

A Primavera Árabe, ao final, não solucionou as antigas mazelas da população do norte da África. Pelo contrário, sob muitos aspectos a situação piorou – há quem afirme inclusive que a ascensão do Estado Islâmico passa diretamente pelo ocorrido naqueles países. De todo modo, o futebol respira com alguma saúde na região.

PS: na atual Copa, a Tunísia novamente fez história. Pela segunda vez, um técnico da seleção nacional foi demitido em pleno torneio. Esse fato se deu apenas em outras duas ocasiões, sendo que uma delas envolveu o tetracampeão Carlos Alberto Parreira, afastado do comando da Arábia Saudita na França em 1998.

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