O pesquisador Miguel Nicolelis criticou duramente a automação de decisões fundamentais em regimes democráticos
Por Misto Brasil – DF
Em entrevista ao canal do Conde e ao Brasil 247, o cientista brasileiro Miguel Nicolelis fez um duro alerta sobre o impacto da inteligência artificial (IA) na sociedade contemporânea, antecipando debates de seu próximo livro.
O neurocientista classificou as estruturas por trás dessa tecnologia como “parasitas digitais” e lamentou a adesão recente de instituições — como o anúncio do Palmeiras com a Google DeepMind para análise tática — a um modelo que, segundo ele, ameaça a própria agência, a criatividade e a capacidade de improvisação humana.
O pesquisador criticou duramente a automação de decisões fundamentais em regimes democráticos.
Nicolelis contestou a tese de que os algoritmos de deep learning trariam maior objetividade que a mente humana, citando falhas graves em softwares jurídicos e bancários nos Estados Unidos, que perpetuaram preconceitos raciais estruturais contra populações afro-americanas e hispânicas ao decidirem sobre prisões e créditos imobiliários.
Segundo o cientista, delegar essas funções a redes neurais cujos critérios de cálculo nem os programadores conseguem rastrear destrói a infraestrutura da racionalidade e da política.
Além do aspecto ético, a análise expôs o impacto ambiental devastador dos novos hyperscale data centers, com forte crítica às políticas de atração dessas estruturas para o Brasil, como o programa Redata.
O cientista desmistificou a promessa de transferência tecnológica e apresentou dados alarmantes: até o final da década, o resfriamento de supercomputadores de IA consumirá um volume de água equivalente ao de 1,3 bilhão de pessoas.
Nos EUA, o ruído constante dessas usinas já provoca insônia crônica em moradores e afeta a produção rural, enquanto o calor dissipado por grandes complexos equivale à energia térmica de dezenas de bombas atômicas diárias.
Por fim, o neurocientista desfez o mito comercial de eficiência da IA, apontando dados do MIT que mostram que 95% dos CEOs das maiores empresas do mundo não veem retorno financeiro na tecnologia.
Custos de processamento e o tempo gasto corrigindo as chamadas “alucinações” dos sistemas tornam a máquina mais cara que o trabalho humano.
Para Nicolelis, a narrativa de um “futuro inevitável” serve apenas para convencer governos a injetar bilhões de recursos públicos em contratos corporativos, mascarando o que considera a maior rede de vigilância digital da história.
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