Imprensa estrangeira: favoritismo de Flávio Bolsonaro

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Flávio Bolsonaro durante discurso em palanque em Santa Catarina/Arquivo/Reprodução vídeo
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A análise dos jornais importantes no planeta destacam o avanço da direita, o clã dos Bolsonaro e as consequências para o Brasil.

Por Misto Brasil – DF

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial ocorrida neste domingo (04/10) foi destaque nos principais veículos da imprensa europeia, que vê o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fortalecido e com boas chances de vitória.

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Abaixo, um panorama da cobertura, levantamento realizado pela DW.

Tagesschau: “Brasil se desloca ainda mais para a direita”

“O Brasil se deslocou mais para a direita. Ciente disso, Flávio Bolsonaro se apresentou confiante em Brasília à imprensa”, escreveu o portal Tagesschau, da emissora pública de TV ARD, líder de audiência na Alemanha.

O resultado de domingo o “consolidou como um candidato forte, embora até poucos meses atrás lhe fosse atribuído pouco carisma”.

Já Lula discursou para “uma plateia de derrotados”. “Atrás deles aplaudiam políticos visivelmente abalados, que em sua maioria já perderam suas eleições. O Partido Liberal [da família] Bolsonaro obteve amplas maiorias tanto no Senado quanto na Câmara e nos governos estaduais.”

O site destacou ainda a eleição da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro e de Carlos Bolsonaro ao Senado, e de Jair Renan à Camara dos Deputados.

Der Spiegel: “O clã Bolsonaro triunfa”

A revista alemã disse que “o bastião da esquerda na América do Sul está prestes a cair” e que o bolsonarismo “varreu o Brasil como um tsunami”.

“Candidatos de partidos moderados e de esquerda foram arrastados pela onda; o PT de Lula encolheu a ponto de se tornar uma legenda regional; e candidatos conservadores tradicionais foram relegados ao papel de figurantes no cenário político.”

“Já não se pode confiar muito nos institutos de pesquisa; essa também é uma das lições deste domingo. Ao que parece, quem vota na direita gosta de manter isso em segredo”, afirma a reportagem, arrematando que a vitória “torna-se ainda mais saborosa quando o resultado da eleição” contraria as previsões.

Segundo a Spiegel, Lula foi “punido” porque, na visão da maioria dos eleitores, tem poucos resultados positivos a mostrar. A ele restará a “tarefa hercúlea” de mobilizar no segundo turno os mais de 20% que se abstiveram de votar nessa eleição porque estariam desiludidos com o sistema político e a corrupção abrangente.

Sueddeutsche Zeitung: “Flávio Bolsonaro — e não Lula — é o favorito no 2º turno”

O diário alemão afirma que o resultado da eleição no primeiro turno mal surpreende, se considerada a revelação, nas últimas semanas da campanha, dos elos do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Com isso, diz o SZ, Flávio “conseguiu fazer com que sua própria ligação com Vorcaro fosse esquecida”.

Para o periódico, Flávio também teria sido beneficiado pela polêmica sobre Nossa Senhora de Aparecida. A fake news contra o candidato, escreve o SZ, foi um dos “pontos mais baixos” da campanha em termos de conteúdo.

O jornal destaca que o resultado do segundo turno “terá relevância muito além do Brasil”, já que o país é o único peso-pesado latino-americano, ao lado do México, a ainda ser governado pela esquerda.

“Mesmo que não vença a Presidência no segundo turno, a família Bolsonaro se firmou como uma dinastia na política do Brasil.”

The Guardian: “Flávio Bolsonaro vai ao segundo turno como forte favorito”

Assim como a Spiegel, o Guardian também reportou que as pesquisas “falharam em prever a escala do triunfo da direita”, destacando a liderança de Flávio e a eleição de 34 dos 54 senadores. “Bolsonaro parecia ter o vento a seu favor nos últimos dias da campanha, em meio à frustração do público com a crise do custo de vida e a violência urbana.”

O jornal britânico vê o candidato do PL como favorito, afirmando que ele deve herdar os votos de outros candidatos de direita no segundo turno, como Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).

Além disso, o Guardian aponta que a ultradireita está de olho no Senado porque a instituição é a única com poderes para remover ministros da Suprema Corte de seus cargos — “uma demanda entre bolsonaristas desde que o STF prendeu o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe”.

The New York Times: “Eleição pode ter consequências profundas muito além das fronteiras do país”

O americano NYT destaca que um triunfo de Flávio no segundo turno representaria “a maior vitória da direita ascendente na América Latina até agora”, e colocaria na Presidência “um aliado entusiasmado do governo Trump, que já sinalizou estar disposto a ajudar Washington em sua meta de dominar a região”.

O jornal lembra que aliados da Casa Branca em temas como o “combate às facções do narcotráfico e à chamada ‘ideologia woke’ venceram as últimas sete eleições na região, sendo o Brasil o maior prêmio ainda em disputa”.

Caso Lula prevaleça no segundo turno, porém, isso “desaceleraria a impressionante marcha da direita pelo continente e complicaria os planos de Trump”. “Embora não tenha declarado apoio a Bolsonaro, seu governo trabalhou para fortalecê-lo de maneiras mais sutis”, afirma o NYT, citando a classificação de CV e PCC como grupos terroristas e a tentativa da Casa Branca de enviar uma delegação para investigar as urnas eletrônicas.

El País: “Ultradireita mais perto de voltar ao poder no Brasil”

“O herdeiro político do clã ultradireitista liderou a apuração do início ao fim, superando um dos políticos mais influentes da América Latina neste século, que governou o Brasil durante 11 anos”, escreveu o jornal espanhol ao se referir à vitória de Flávio sobre Lula. “Com esse resultado, o bolsonarismo exibe músculo e se coloca a um passo de voltar ao poder na primeira potência latino-americana.”

“O fiasco deste primeiro turno se desenha como devastador para a esquerda, porque Lula já concorreu como o único candidato do campo progressista. Ele tem, portanto, pouca margem para conquistar novos apoios no segundo turno, a menos que consiga mobilizar os eleitores que se abstiveram de votar. Seu adversário tem praticamente garantidos os votos dos candidatos de direita eliminados da disputa.”

Para o diário, o resultado do primeiro turno é um “triunfo pessoal” para Flávio, “visto como candidato fraco e que é investigado por corrupção”, e para a família Bolsonaro, “pois fortalece o bolsonarismo como a referência incontestável da direita brasileira”.

“É ainda uma vitória para Jair Bolsonaro, que cumpre em prisão domiciliar uma pena de 27 anos por liderar uma conspiração golpista destinada a mantê-lo no poder após sua derrota para Lula nas eleições de 2022. Seu filho mais velho prometeu conceder-lhe indulto caso chegue à Presidência.”

O jornal também elenca vitórias da direita conservadora, por exemplo, no governo de São Paulo com a reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o avanço do PL no Congresso, “o que abre caminho para a destituição de ministros do STF e para a anistia dos condenados pelos atos golpistas de Brasília”.

Die Zeit: “Brasil sofre da síndrome de Joe Biden”

“Até pouco tempo, muitos brasileiros ainda achavam que a era Bolsonaro havia acabado […]. Mas o primeiro turno da eleição presidencial mostrou: a ameaça autoritária está de volta”, escreveu o jornal alemão ao se referir às chances de Flávio Bolsonaro de assumir a Presidência. “Há muito em jogo, a democracia do Brasil está em risco.”

Ao reproduzir uma declaração de Lula, que afirmou a apoiadores estar convencido de que venceria no primeiro turno, o Zeit afirma que a frase “denuncia que a certeza de que ele é o mal menor para muitos brasileiros já não basta mais para ganhar eleições”.

Com quase 80 anos e quase meio século na política, o atual presidente é para o jornal o sinal evidente da falta de renovação política no PT. “De certa forma, o Brasil sofre, com Lula, da síndrome de Joe Biden. O projeto político inteiro da esquerda democrática no Brasil depende dele. E em vez de personificar a mudança, o ex-líder sindicalista, ao estar sempre ali, se transformou para muitos brasileiros em um símbolo de estagnação política.”

Financial Times: “Tremenda reviravolta política no maior país da América Latina”

O jornal britânico, que manchetou em seu site a vitória de Flávio, também decretou o favoritismo do candidato à Presidência, afirmando que ela significaria “uma tremenda reviravolta política no maior país da América Latina”.

O FT escreveu que a disputa “vem sendo acompanhada de perto” pelos EUA, que buscam ampliar sua influência no hemisfério ocidental.

“Uma vitória de Bolsonaro representaria um impulso para o governo Trump, que tem defendido uma abordagem muito mais militarizada para o combate ao narcotráfico.”

O jornal também cita investidores otimistas com uma vitória de Flávio, “dada a possibilidade de políticas fiscais mais restritivas sob Bolsonaro e reformas que poderiam impulsionar o crescimento econômico”.

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