Texto de Telma Miguel
Quer o seu bife bem ou mal passado, de carne de vaca abatida num matadouro ou de carne cultivada em laboratório? Esta pergunta poderá dentro de poucos anos fazer parte da rotina de um garçom. Talvez não num restaurante qualquer, mas num restaurante mais dado à inovação.
A existência desta carne, que está sendo desenvolvida há anos, não é um grande segredo, mas a iminência da sua comercialização foi uma das conclusões de uma conferência internacional sobre carne de laboratório, em Maastricht, e que encheu La Bonbonnière – um pequeno teatro do século XVIII desta cidade holandesa – com perto de 200 especialistas.
Em 2013, Mark Post, o anfitrião da conferência, tinha apresentado em Londres, numa degustação, o primeiro hambúrguer de vaca produzido em laboratório a partir de células estaminais de músculo de vaca retiradas através de biópsia. Na altura, o hambúrguer teria um custo calculado de 250 mil euros. Mas desde esses dias até hoje muita coisa aconteceu do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico, do interesse da indústria, do apetite do consumidor e até da regulamentação, que está em marcha muito acelerada.
“Dentro de aproximadamente três anos, um hambúrguer equivalente custará por volta de dez euros (cerca de R$ 50)”, calcula Mark Post. “Nos primeiros tempos, não estará à venda nos supermercados. Imagino que será mais uma coisa de restaurantes, porque o preço de 60 euros (R$ 250) o quilo não é razoável para o grande público, mas queremos que rapidamente se torne acessível.”
Além de dirigir o Departamento de Fisiologia da Universidade de Maastricht – e de ser a figura emblemática da carne de cultura, carne artificial, ou carne in vitro–, Mark Post é o responsável científico da Mosa Meat, uma startup que nasceu com as suas investigações na universidade e que agora está a crescer muito rapidamente e a preparar-se para ser um bom negócio. Em 2019, a Mosa Meat passará de dez para 25 funcionários. Está contratando cientistas e a procurando um local para começar a trabalhar a todo o vapor, para começar a vender carne de laboratório na Europa.
Em 2018, a Mosa Meat já tinha recolhido 7,5 milhões de euros de financiamento provenientes da Merck e do maior grupo suíço na indústria da carne, o Bell Food – uma ligação que junta de um lado a tecnologia na área biomedicina e, do outro, a capacidade de distribuição no mercado europeu. Esta operação significa que a carne de cultura passará do domínio da bizarria de uns quantos cientistas para o universo do agronegócio.
Mark Post sustenta que há 30 startups no mundo inteiro a desenvolver produtos comerciais com carne de laboratório, a grande maioria nos Estados Unidos, sobretudo na zona altamente tecnológica da Califórnia, mas também em países como Israel. “Acreditamos que todas estas empresas estejam a fazendo os mesmos cálculos para lançar os seus produtos no mercado em 2021, já há muito investimento nesta área.”
No La Bonbonnière – na 4ª Conferência Internacional de Carne Cultivada, onde se discutiram os desenvolvimentos científicos necessários para passar à produção em escala e a regulamentação –, também esteve presente a SuperMeat.
Nos seus laboratórios em Telavive, esforça-se por replicar carne de frango. Na página da Wikipédia que lhe é dedicada refere-se que a SuperMeat formalizou em 2018 uma parceria estratégica com a PHW, um “dos maiores produtores de aves da Europa”. Do outro lado do Atlântico, instalada na área de São Francisco, a Memphis Meat também aposta em 2021 como o ano de lançamento dos seus produtos comerciais, depois de ter recebido um investimento de Bill Gates e de Richard Branson em 2017 e da Tyson Foods em 2018.
Três anos após o hambúrguer holandês, a Memphis Meat exibiu, em 2016, a primeira almôndega feita com células de animal e, tal como as outras startups, esta empresa está ampliando a sua equipa.
De vaca para peixe – O futuro deste tipo de produtos parece tão promissor que o interesse não se limita aos animais terrestres. A Finless Foods aposta na produção de carne de atum (sem pesca e sem aquacultura, claro). “Há imensas vantagens ambientais”, sustenta Jennifer Tung, bióloga celular desta empresa norte-americana.
“Por exemplo, a preservação das espécies marinhas e poderem fazer-se produções locais de proteína de peixe em zonas distantes do mar, sem o custo do transporte e sem sacrificar a frescura”, especifica Jennifer Tung. “Quanto ao peixe, também há a questão dos metais pesados. No futuro, será possível comer sushi sem mercúrio e sem os poluentes dos oceanos.”
Ainda no campo da pura investigação, Nathalie Rubio está a fazer o doutoramento na Universidade de Tufts, em Boston, sobre cultura de tecidos de inseto para agricultura biológica. Trabalha especificamente na mosca-da-fruta, inseto em relação ao qual há imensa informação genética disponível.
Bolsista do New Harvest, um instituto de investigação em agricultura celular na Universidade de Tufts, Nathalie Rubio não acredita que haja um bife de mosca no mercado a curto prazo. “Sou a única pessoa que conheço que se dedica a isto. É claro que é uma ideia nova e não será agora o momento oportuno para produzir em larga escala. Mas tendo em conta o conhecido valor nutritivo dos insetos, penso que é muito promissor”, explicou ao Público.
Do ponto de vista do consumidor, admitiu que tal será mais difícil de aceitar do que a carne de animais que já fazem parte da dieta ocidental. “Mas se for uma questão de alimentar a população mundial crescente com uma proteína altamente nutritiva, e que aparentemente ficará muito barata, eu, sinceramente, preferia não ter de comer os seus olhinhos e perninhas.”
Em 2013, o hambúrguer cozinhado em Londres na apresentação de Mark Post tinha uma característica que não pode ser mantida para venda ao público. As células estaminais haviam sido cultivadas com recurso a soro bovino, um material recolhido com extrema crueldade, com uma punção no coração do feto vivo no útero de uma vaca (e que provoca a morte dos dois animais).
Para levar esta carne até ao consumidor, procuram-se agora alternativas ao soro bovino. “A fonte pode ser oriunda de bactérias, de origem vegetal ou de fungos. E o negócio de produzir esses componentes em larga escala é algo que surgirá em paralelo e que está a ser incentivado”, sustentou depois Mark Post aos jornalistas presentes na conferência. O objetivo é criar um produto livre de crueldade animal.
“Vender carne que recorra a soro bovino não faz sentido nenhum. De origem animal, o nosso produto terá apenas as células que são recolhidas, e que não implica crueldade nem morte.” Afinal, grande parte do apoio ao desenvolvimento daquela que também é conhecida como clean meat (“carne limpa”) vem dos grupos de defesa dos animais.
Mas até chegar ao prato, esta carne produzida em biorreatores tem ainda de ser aperfeiçoada em termos de gosto. “Estamos a desenvolver tecido gordo, que é o que acrescenta suculência, textura e sabor”, disse Mark Post. A ideia é que à mesa chegue um bife tão parecido quanto possível com o cortado num animal abatido. “O que vamos vender não é um produto alternativo à carne, é biologicamente tecido animal, sem dúvida.”
Do ponto de vista do consumidor, Chris Bryant, investigador do Departamento de Psicologia da Universidade de Bath (Reino Unido), apresentou uma revisão dos principais estudos internacionais (nos Estados Unidos e na Europa) desde 2005 até hoje. Concluiu que os interessados em experimentar esta carne são, na maioria, homens, jovens e omnívoros. “Tudo indica que os homens são em geral menos cautelosos do que as mulheres quando confrontados com comida que não lhes é familiar.” Por outro lado, os jovens “estão mais preocupados com questões ambientais e com o bem-estar animal”.
Os vegetarianos e os vegans “não são o mercado para esta carne”: “Só 5% deste grupo está disponível para provar, talvez porque desenvolveram uma relação de nojo com a carne em geral.” Este é um dado uniforme quer nos EUA quer na Europa. Mas se quisermos comparar os dois blocos geográficos, “os norte-americanos estão mais predispostos” para consumir este novo produto.
(Telma Miguel trabalha no Público)


















