Texto de Mariana Duraes
“A mim resta-me lamentar o que está acontecendo e esperar que o senhor mude de atitude — o que me parece completamente improvável — ou saia do cargo de ministro da Educação”. Foi assim que Tabata Amaral, deputada federal de São Paulo pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), encerrou a sua intervenção na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, no dia 27 de março.
Com 25 anos e a exercer pela primeira vez um mandato de deputada — depois de ter sido eleita com mais de 264 mil votos —, a jovem questionou o ministro da Educação, Ricardo Vélez, acerca dos projetos e metas para o sector. Mas não obteve respostas. Num tom sereno, a deputada criticou Vélez por “já terem passado três meses” e apenas ter sido apresentado “um power point com dois ou três desejos para a área da Educação”. “Isto não é planeamento estratégico”, afirma.
Nascida na Vila Missionária, um bairro pobre na zona Sul de São Paulo, Tabata contrariou o destino que lhe poderia estar traçado e formou-se em Ciência Política, na Universidade de Harvard, com o apoio de uma bolsa de estudo. Depois de terminado o curso, voltou ao Brasil para se dedicar ao ensino e fundou a Mapa Educação, uma organização que pretende “garantir uma educação de qualidade para todos os brasileiros” e “mobilizar jovens em todo o Brasil em prol de melhores políticas públicas educacionais”, lê-se no site.
A deputada acredita na educação como uma ferramenta para o desenvolvimento social e que os problemas do sector no Brasil “não são técnicos”, mas sim políticos.
Ao currículo junta-se ainda a fundação do Acredito, um movimento que quer “ter um Congresso mais com a cara do Brasil”, explica Tabata ao jornal Zero Hora. Desde janeiro, está sentada na Comissão Permanente de Educação de São Paulo.
Meritocracia? A deputada acredita que não. Aliás, esse é um termo que a “incomoda demais”. “Nunca conto a minha história sem contar a história daqueles que estavam ao meu redor, com esforço semelhante, com inteligência muito parecida, mas que nunca tiveram oportunidades e nunca, de facto, puderam sonhar e ver um mundo maior do que o da periferia onde a gente cresceu”, afirmou, citada no mesmo texto.
“Foram as oportunidades iniciais na educação [que eu tive] e que todo o mundo ao meu redor não teve”, continua — como as Olimpíadas de Matemática que venceu quando estava no quinto ano do Ensino Fundamental e que lhe valeram uma bolsa para estudar numa escola privada.
Durante o discurso — que se tornou viral e conta já com compartilhamentos no Twitter e milhares de comentários —, a deputada do PDT conta como perdeu o pai para a toxicodependência e os amigos para a violência.
“A falta que a educação faz nas periferias mata”, diz. No final, Vélez — que pode ter o seu cargo em risco, depois de Jair Bolsonaro ter dito à imprensa brasileira que o ministro não tinha “tato político” — aconselha-a a consultar a Secretaria (da Educação) para ter acesso a dados referentes à área em discussão.
“Como é possível gerir uma pasta tão complexa, tão grande e tão importante como é o Ministério de Educação, sem conhecer os dados? Eu não conheço nenhum bom gestor que não conhece o mínimo do que está a fazer”, atira a deputada.
A decisão de concorrer a deputada federal pode ter sido tomada “bem em cima da hora”, mas Tabata quer representar a comunidade de onde vem. “Como [é que] vou falar de mais mulheres na política, mais periféricos, mais negros, mais jovens, se não tenho coragem de colocar o meu nome à disposição?” — por isso, ou ingressava na política, ou “atirava a toalha ao chão”.
E agora que entrou, está decidida: “A educação é o único caminho que vale a pena. Vale sonhar os maiores sonhos, dar tudo o que temos por eles, porque, na hora em que conquistamos uma posição, a nossa comunidade vai junto”.
(Mariana Duraes é repórter do Público)


























