Onda de invasões na Terra Yanomami

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Dário Vitório Kopenawa Yanomami está ameaçado de morte. Ele e o pai, Davi Kopenawa, liderança do povo Yanomami, presidem a Hutukara Associação Yanomami, em Roraima. Desde que voltaram a denunciar o garimpo ilegal na terra indígena, as perseguições aumentaram.

“Eles estão falando que a Hutukara está atrapalhando o trabalho de garimpagem na Terra Indígena Yanomami”, afirmou Dario, por telefone, à DW Brasil. “Se vocês continuarem denunciando, a gente vai matar você”, disse sobre as ameaças anônimas que recebe.

Questionada sobre providências tomadas para a retirada de invasores da TI Yanomami, a Polícia Federal não respondeu a tempo do fechamento desta reportagem.

Os indígenas afirmam que as invasões dispararam nos últimos sete meses. Segundo a contagem feita por eles, até 20 mil garimpeiros estão atualmente no território atrás de ouro. Eles desmatam, abrem cavas na terra e contaminam o solo e a água com mercúrio.

A maior parte deles monta acampamento a poucos minutos de caminhada das aldeias. “Eles entram com drogas no nosso território. O aliciamento é muito grande, dão comida, cachaça, arma de fogo e cartucho aos indígenas e depois dizem que são garimpeiros ‘bons’, que vão ajudar”, denuncia Dario.

No meio do território Yanomami, localizado nos estados de Roraima e Amazonas, pistas de pouso clandestinas são construídas para trazer suprimentos e levar o ouro encontrado. Sobrevoos feitos recentemente identificaram, além de casas improvisadas, bares, pontos de wifi e cabarés nas áreas de garimpo.

“Esses garimpeiros não trabalham sozinhos. Eles têm muito apoio e financiamento de políticos importantes e empresários grandes”, acusa Dario, vice-presidente da Hutukara.

As denúncias são ecoadas por ONGs dentro e fora do país, como a Survival International. “Achamos extremamente importante mostrar para o mundo o que está acontecendo. Vemos que a pressão internacional é a melhor maneira de se obter mudança duradoura para comunidades indígenas e seus territórios”, disse Sarah Shenker, pesquisadora da organização sediada em Londres.

No Ministério Público Federal (MPF) de Roraima há diversas investigações criminais envolvendo a atividade, mas todas correm em sigilo.

Na última semana, outra terra indígena foi alvo de uma violenta invasão de garimpeiros, chamando atenção para o problema. O território dos Waiãpi, no Amapá, foi invadido por um grupo de garimpeiros armados, e um líder indígena foi assassinado, provocando tensão e reações de entidades e políticos.

O presidente Jair Bolsonaro já se manifestou diversas vezes a favor da exploração de minerais e de outras atividades econômicas em terras indígenas, uma de suas promessas de campanha. Nos últimos dias, o governo federal finalizou a minuta de um projeto de lei para regulamentar a mineração nas reservas, e o presidente falou sobre a TI Yanomami. 

“Terra riquíssima. Se junta com a Raposa Serra do Sol, é um absurdo o que temos de minerais ali. Estou procurando o ‘primeiro mundo’ para explorar essas áreas em parceria e agregando valor”, disse Bolsonaro em evento no Rio de Janeiro no sábado.

No Brasil, a Terra Indígena (TI) Yanomami foi homologada em 1992 e compreende 96 mil km² espalhados por Roraima e Amazonas. O território do povo, porém, se estende até a Venezuela. Dados mais recentes, de 2011, indicam uma população de 19 mil indígenas Yanomami no território brasileiro e 16 mil do lado venezuelano.

A TI Yanomami sofreu a primeira grande invasão ainda na década de 1980, com a chegada de cerca de 40 mil garimpeiros. Demarcada em 1992, a TI foi alvo de diversas operações para expulsão dos invasores, sempre movidas por denúncias feitas pelos próprios indígenas.  

Trata-se do ponto no mapa mais cobiçado por mineradoras. Um levantamento feito pelo ISA, Instituto Socioambiental, mostrou que existem pelo menos 534 pedidos de pesquisa para exploração de minérios no local.

O antropólogo Marcos Wesley, que atua na região há mais de 20 anos por meio do ISA, reafirma a seriedade da situação. “Esse é o momento mais grave desde a primeira grande invasão na Terra Indígena Yanomami”, afirma. Segundo Wesley, até os locais mais remotos, onde antes não se registrava a presença de garimpeiros, estão sendo afetados.

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