As eleições nos Estados Unidos e a Política Externa Brasileira

Palácio do Itamaraty Misto Brasília
Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores/Arquivo
Compartilhe:

Texto de Marcelo Rech

A menos de 100 dias das eleições nos Estados Unidos, ganham corpo as análises e interpretações acerca de como serão as relações bilaterais, caso Donald Trump não seja reeleito. Especula-se que a Política Externa Brasileira teria de passar por uma nova guinada para que os Estados Unidos, sob a presidência do democrata Joe Biden, mantivesse o Brasil no radar de Washington.

No entanto, a história registra que, independentemente dos governos de turno, as relações entre Brasil e Estados Unidos se mostram estáveis há muitas décadas. Nem mesmo o escândalo de espionagem denunciado por Edward Snowden, em 2013, foi capaz de abalar as estruturas dessa relação. Houve um período, normal, de esfriamento, mas a maioria dos mecanismos bilaterais não deixou de funcionar.

O que de fato será determinante para o futuro do relacionamento bilateral, será a agenda norte-americana para a América Latina. A guerra em curso com a China, tem feito com que os Estados Unidos olhem para a região com mais atenção. O que antes era visto como um quintal, agora pode representar a redenção estratégica, principalmente se Washington conseguir convencer as empresas norte-americanas a abandonarem a Ásia e instalarem-se em seu entorno geográfico.

A ideia, lançada por Donald Trump, representa uma grande sacada. Ao mesmo tempo em que enfraquece o adversário, contribui para neutralizar vários problemas como a imigração ilegal de latino-americanos para os Estados Unidos. Não é segredo que a maioria busca, no Norte, oportunidades que não encontram em seus países. Importante lembrar que, em 2014, a China anunciou que investiria cerca de US$ 750 bilhões na região, em uma década. Mais empresas norte-americanas na América Latina, poderia representar, também, mais investimentos nestes países, diminuindo a pressão social regional e reduzindo a dependência chinesa.

O Brasil representa 47% da economia da América Latina. É pouco provável que o país seja beneficiado diretamente por ações desta natureza, mas é fato que, mesmo sob governo democrata, os Estados Unidos jamais deixarão de buscar o aprofundamento das relações. Gigante pela própria natureza, o Brasil faz fronteira com 10 países, sendo três produtores mundiais de drogas. Assim como fez Barack Obama, Joe Biden tratará de alinhar os interesses, não de isolar o Brasil.

As análises que dizem o contrário, estão eivadas de outros interesses. Há muita gente torcendo contra, fazendo campanha no exterior, gestando caos e defendendo o isolamento internacional do Brasil. Muitos dos quais, ocuparam cargos executivos quando tiveram a oportunidade de fazer o que pregam, e não o fizeram. É preciso que as hostilidades contra o país sejam abandonadas. O Brasil é muito maior que seus políticos e os prejuízos provocados por razões ideológicas, custarão caro à sociedade, não às autoridades.

Por isso, também, é fundamental que o Brasil se sustente por meio de uma Política Externa de Estado, cuja orientação, siga preceitos permanentes, não temporais. Assim como a Defesa, a Política Externa não pode estar alinhada à interesses político-partidários deste ou daquele, de direita ou de esquerda. Mais: os estragos e a desidratação a que foi submetido o Ministério das Relações Exteriores, num passado recente, não podem ser repetidos, nem mesmo levados para outro extremo.

Ao mundo, a mensagem que o Brasil deve transmitir é a de um país que respeita os acordos e tratados dos quais é signatário; um país onde há segurança jurídica e um sistema legal independente e autônomo; e onde a democracia não é monopólio de uns poucos.

O relacionamento internacional do Brasil, deve, além disso, ser sustentado pela defesa intransigente de sua soberania, da sua riqueza e dos seus valores. Não guiada por interesses externos de países, blocos ou organizações não governamentais. O politicamente correto é a voz firme com quem quer que seja, republicano ou democrata.

PARTICIPAÇÃO DO LEITOR

Participe desta discussão

Compartilhe sua opinião sobre este assunto. As participações passam por análise editorial antes de qualquer utilização no site.

Seu e-mail não será publicado.
Entre 20 e 3.000 caracteres.

Assuntos Relacionados

Siga o Misto Brasil

Acompanhe em todas as redes

Notícias, vídeos e destaques em tempo real. Escolha sua rede favorita.

Dica: acompanhe também pelo WhatsApp para receber atualizações rápidas.

Brasília e Entorno do DF

Oportunidades