Texto de Maya Félix
Ao longo de quase 20 anos atuando como protetora independente de animais de rua, infelizmente já tive que levar cães e gatos de que cuidava para a eutanásia. Quando o animal sofre terrivelmente com males sem cura, é o que se pode fazer de melhor por ele. É um momento tenebroso. Pessoas que conheço me dizem que não conseguem ficar perto do bichinho no momento da morte. Eu sempre choro, mas fico ao lado do animalzinho até o final, converso com ele, faço carinho. Para ele, é o último momento de sua curta história.
Para quem não sabe, tudo é feito com ética. A Resolução n° 1000, de 11 de meio de 2012, aprovada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, diz, em seu Artigo 4°, que há princípios básicos norteadores dos métodos de eutanásia, como o “elevado grau de respeito aos animais”; a “ausência ou redução máxima de desconforto e dor nos animais”; a “busca da inconsciência imediata seguida de morte”; a “ausência ou redução máxima do medo e da ansiedade entre outras. Primeiro, o veterinário aplica um sedativo forte (em geral é o Propofol, o mesmo sedativo que o Michel Jackson usava), para que o animal apague completamente e não sinta a dor e a agonia da segunda aplicação, letal, que é a injeção de cloreto de potássio, substância que faz parar o coração. É assim em todas as clínicas veterinárias, nos centros de zoonoses, em abrigos para animais. É o que manda a ética veterinária.
O abate de animais para consumo também passa por critérios e medidas éticas, pergunte a qualquer zootecnista. Na Internet, achei: “Animais submetidos ao estresse antes do abate liberam toxinas na corrente sanguínea que podem alterar a cor, a consistência e o período de validade da carne”. Além de questões éticas, há também o lucro, que diminuiria caso os animais passassem por stress antes da morte.
Animais são submetidos a critérios éticos ao sofrerem eutanásia ou quando de seu abate, mas um bebê humano de 23 semanas, equivalente a seis meses de gravidez, teve sua vida interrompida sem nenhuma dignidade.
O bebê – uma menina – já sentia dor e sua audição estava aguçada. Era capaz de ouvir sons. Com 23 semanas, ela devia medir cerca de 28 centímetros e pesar em torno de 500g. Os olhos dela já se moviam através de movimentos rápidos e todos os traços do seu rosto já estavam definidos. Esse ser humano que estava a duas semanas de poder viver fora do útero de sua mãe não teve direito nem mesmo à ética veterinária: recebeu uma injeção de cloreto de potássio diretamente no coração, sem anestesia. Nos animais, manda a ética, aplica-se a anestesia antes do cloreto de potássio.
Esse bebê foi tratado como uma “coisa”, um “monstro”, um “álien” que deveria ser eliminado, como se a culpa pelo crime hediondo do tio fosse sua. Depois que seu coração parou, o bebê foi cortado em pedaços ainda dentro do útero para que seus restos fossem retirados do ventre da criança violentada.

