Texto de Gilmar Corrêa
Na quinta-feira estava parado no sinal quando um homem de bermuda, camiseta e boné apareceu com uma caixinha de papelão. Dentro estavam pacotinhos de uma bala de goma de hortelã. Um pacotinho verde com dez ou 12 balinhas.
Ofereceu a guloseima por um ou dois reais. Não lembro. Respondi que não tinha dinheiro e nem trocado no bolso.
– Abençoado, disse ele, fique com as balinhas. Tenho certeza que se você fosse eu, também daria, emendou.
Recebi o presente inusitado e agradeci. Na sequência, o vendedor comentou que estava acampado próximo do Teatro Nacional, um monumento cultural que está fechado há anos em pleno centro de Brasília. O rapaz de meia idade perguntou sobre campanhas de doações, porque sua filha estava sem leite e que não tinha dinheiro para comprar.
O vendedor do sinal não fez proselitismo da sua miséria e nem chorou suas mágoas. Fez apenas uma pergunta para receber uma resposta capaz de resolveu seu dilema diário de comer, beber e garantir o mínimo para a família que mora numa barraca de plástico preto.
– Tem algumas campanhas acontecendo, respondi sem dar detalhes.
Ele agradeceu e voltou para a sua tarefa de reunir uns trocados até no fim do dia.
Segui para o colégio onde esperava meu filho de 9 anos. Amadeus entrou no carro, pegou o pacotinho como um troféu e logo abriu. Ofereceu uma balinha. Pensei na gentileza do vendedor e na educação de meu filho. Falei sobre a curta história das balinhas e que iria comprar uma lata de leite em pó.
Passei no supermercado, dei a volta na Esplanada e, coincidência, o sinal fechou. Vi o rapaz com a bebê no colo. Entreguei o “meu” presente.
E mais uma vez me chamou de “Abençoado”, como um mantra que repete carro após carro parados no sinal. Segui com o coração apertado: tão pouco e ao mesmo tempo tão importante.
Me senti muito pequeno, incapaz de comprar tantas latas de R$ 14,50 para muitos que precisam. Crianças arrastadas pela pobreza, vivendo em condições tão insanas e com pais forçados às esmolas e ao subtrabalho.
Como diz o Renato Candemil – nosso colega aqui do Misto Brasília – que fiquemos com a reflexão e com mais justiça.





















