Texto de Viviane Roussenq
O espírito não conhece calendário, continua a dançar na sala enquanto os anos passam. Mas envelhecer é chato.
Menos pela aparência, mais pelas limitações que o corpo enfrenta. Percebi que a juventude se despediu pra sempre quando minha visão pela primeira vez turvou e tive que pedir ajuda em um supermercado para ler o preço da etiqueta.
Mais tarde, notei como dei pra falar tanto e ouvir menos. Depois no espelho, de cara lavada encarei os sulcos na pele que o tempo lentamente se encarregou de me trazer. E então vieram rugas, novas erosões no corpo. Mas a cabeça nunca acompanhou estas novidades geriátricas.
Difícil não lembrar de Danusa Leão ao definir a velhice: “É quando a cabeça está em alta e a bunda em baixa”.
Vamos vivendo esta nova vibe, mas acreditem, eu ao menos daria tudo para viver pela menos um dia a juventude que já me visitou.
E o que me define é o que sou, o que faço. Não amo meus sulcos, nem minhas rugas. Eu os tenho apenas como alerta para viver tudo com mais apetite pois o tempo é bem mais curto agora.
Eu amo o que fui, o que sou e isso escapa à forma flácida que o tempo esculpe em nossos corpos.
A cabeça segue a mil, o corpo se arrasta.
Mas cá pra nós que dobramos o cabo da Boa Esperança, o bom de envelhecer é a serenidade de conviver com estas mudanças e saber rir de si mesmo, sempre.
Envelhecer é chato. Mas nos incomoda pouco quando maduros e experientes nos aceitamos e deixamos a mente leve para encarar as mil possibilidades de viver bem e feliz.
Para o mestre Gilmar Taeschner Correa, que hoje completa mais uma estação.
(Viviane Roussenq é jornalista e trabalha em Santa Catarina)


















