Há muitas perguntas sobre o novo regime talibã, mas os paquistaneses defendem o diálogo numa questão sensível
Texto de Ivan Godoy
Desde que os talibãs entraram em Cabul, numa ofensiva fulminante que assombrou o mundo, diante do desmoronamento das forças armadas e policiais do Afeganistão, praticamente sem luta, uma discussão predomina no cenário internacional: o que fazer diante da nova realidade.
Deve-se isolar completamente o novo regime, diante do temor de uma volta à situação de duas décadas atrás, quando o grupo radical mostrou sua face mais brutal, eliminando todas as liberdades e procurando afastar as mulheres do espaço público? Ou é preciso manter o diálogo, para influenciar os novos senhores do país a cumprirem as promessas de uma atitude mais moderada?
Para os vizinhos do Afeganistão, a resposta não é isolar o país: por motivos de segurança, para evitar o aumento, já insuportável, do fluxo de refugiados e por questões econômicas. É a posição do Paquistão, da China, do Irã e da Rússia. Esta última, embora não tenha fronteiras com aquele país, teme por seus aliados, que pertenciam à extinta União Soviética.
É importante abordar a posição do principal interessado numa situação de estabilidade no território afegão: o Paquistão. Ao discursar na Assembleia-Geral da ONU, o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, mostrou-se francamente contrário ao isolamento do novo regime. Ele lembrou que seu país foi o que mais sofreu, além do próprio Afeganistão, ao apoiar a chamada Guerra ao Terror desencadeada pelos Estados Unidos após o 11 de setembro.
“Oitenta mil paquistaneses morreram, 150 bilhões de dólares foram perdidos para a nossa economia, 3,5 milhões de paquistaneses foram deslocados internamente”, afirmou. Além disso, a estabilidade interna do Paquistão foi gravemente afetada, com o surgimento de grupos radicais e a entrada de três milhões de refugiados afegãos.
Ele acrescentou que, para o governo paquistanês, estava claro desde 2006 que não havia uma solução militar para o conflito – e essa opinião foi levada às autoridades de Washington. Agora, com a queda, como um castelo de cartas, das estruturas governamentais e militares criadas com o suporte de centenas de bilhões de dólares dos Estados Unidos e de países europeus, isolar o Afeganistão, para o governo paquistanês, serviria apenas para complicar a crise humanitária existente e gerar uma situação de insegurança em toda a região.
“De acordo com a ONU, metade da população do Afeganistão já está vulnerável e, no próximo ano, quase 90% da população afegã estará abaixo da linha da pobreza. Há uma enorme crise humanitária se aproximando. E isso terá sérias repercussões não apenas para os vizinhos do Afeganistão, mas em todos os lugares. Um Afeganistão desestabilizado e caótico se tornará novamente um porto seguro para terroristas internacionais – a razão principal pela qual os Estados Unidos vieram para o Afeganistão”, disse Imran Khan.
Para o primeiro-ministro paquistanês, “só há um caminho a percorrer. Devemos fortalecer e estabilizar o atual governo, pelo bem do povo do Afeganistão”. A ideia é encorajar o regime talibã a cumprir e praticar as promessas feitas ao tomar o poder: respeitar os direitos humanos, ter um governo inclusivo, não permitir que seu território seja usado por terroristas e aplicar a anistia já anunciada.
“Se o mundo puder incentivá-los a seguir nessa direção, a presença de vinte anos das forças da coalizão no Afeganistão não terá sido em vão, afinal. Porque o solo afegão não seria usado pelos terroristas internacionais”, garantiu Khan. E concluiu afirmando que a comunidade internacional não pode perder tempo. “A ajuda é necessária e a assistência humanitária deve ser prestada imediatamente”.
(Ivan Godoy é jornalista em Brasília com larga experiência internacional)
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