O impeachment de Dilma Rousseff e a crise econômica principiada no início do segundo mandato petista determinaram um cenário trágico para a esquerda nos últimos três anos. A autocrítica sobre o envolvimento em casos de corrupção e alianças políticas questionáveis durante os 13 anos de PT no poder não foi feita, e o distanciamento foi sentido nas urnas.
A prova do desgaste ocorreu nas eleições municipais de 2016, que deram um sinal claro de que o discurso do campo progressista fora minado na relação com a sociedade.
“Desde 2002 o PT, como governo, teve muitos acertos, mas também muitos erros. Os acertos são cantados em prosa e verso por todos: Bolsa Família, pleno emprego… Mas também houve erros, e de duas naturezas: o primeiro foi ter deixado intacto a financeirização do país e não ter mexido na distribuição dos impostos, taxação de grandes fortunas. O segundo erro foi o envolvimento com os setores mais conservadores e patrimonialistas da política brasileira, que exigiu pagamentos para apoiar o PT e suas políticas no Legislativo. Isto foi o pontapé inicial do envolvimento do PT nos escândalos de corrupção que se desdobram até hoje”, analisa Céli Pinto, doutora em Ciência Política pela Universidade de Essex, na Inglaterra, e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Recuperar a confiança do eleitorado vai demandar uma nova agenda de propostas, avalia Céli Pinto.
“Falta liderança legítima”, analisa o professor emérito do Departamento de Filosofia da USP Ruy Fausto. “Há por um lado os partidos (PT e PSol, principalmente), que estão mais ou menos em mau estado. O PT vai muito mal. O PSol é um feixe de tendências, a maioria das quais têm ilusões com políticas do passado. Mas há também gente boa no PSol. Há, por outro lado, os movimentos sociais. Importantes, mas as ideias da sua cúpula não vão muito longe”, diz Fausto à DW Brasil.
O ex-ministro da Educação durante parte do segundo mandato de Dilma Rousseff, Renato Janine Ribeiro, vê a esquerda na defensiva, por não ter apresentado novas ideias enquanto esteve no poder.
“Durante 10 anos, a esquerda esteve no governo possuindo dinheiro. Quando o dinheiro acabou, eles não souberam o que fazer. Quem estava no governo tentou. Quem era apoio ao governo não conseguiu entender. Eu, como ministro, recebi uma quantidade enorme de pessoas que só pediam dinheiro, mas não propunham nada”, conta Janine.
“Lula é o político mais popular do país, apesar de todos os pesares. É o líder incontestável do PT há mais de 30 anos. O PT não soube, até agora, ter alguém que se compare a ele, nem de longe. Em parte, por isso, a situação está crítica para a esquerda. A direita sabe que, se ela dificulta a candidatura do Lula, o PT não tem como substituí-lo a altura. A esquerda também sabe disso”, afirma Janine.
A possível ausência de Lula da Silva no pleito é assunto recorrente na formulação de previsões e análises do futuro da esquerda e do país.
“Fala-se muito em nomes. O problema, claro, não é só este, mas isso é importante. De minha parte, cito três: Tarso Genro [ex-governador do RS pelo PT], Marcelo Freixo [deputado estadual do PSOL-RJ] e [o ex-prefeito de São Paulo pelo PT] Fernando Haddad. Freixo parece que não quer, Tarso não sei muito bem, mas parece que ele é muito hostilizado pelo seu partido, e também não sei se ele se disporia a se candidatar. Resta Haddad. Francamente, acho que é um nome bem razoável. Dentro do PT, ele não é muito amado, e isso é o outro lado de uma das características que o tornam um bom candidato: ele não faz parte da máquina”, analisa Ruy Fausto.
Já o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Emir Sader não vê em Haddad a solução para o impasse. “Não é a opção do Lula. Lula disse, recentemente, que se não puder ser candidato, a prioridade são governadores e ex-governadores do PT, que são todos basicamente do Nordeste. Ele [Haddad], ao contrário dos candidatos do Nordeste, foi derrotado pelo João Dória”, completa. O ex-prefeito de São Paulo negou até agora que esteja disposto a concorrer.
O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT), aparece como alternativa, ainda que uma aliança com o PT e os outros partidos da esquerda não esteja em um horizonte próximo.






















