O desandar da carruagem democrática

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Texto de Francis França

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos. Os dez dias de greve dos caminhoneiros expuseram a desconcertante complexidade do Brasil. Em mais um dos soluços de revolta organizada que acometem a população de tempos em tempos, a sociedade civil brasileira demonstrou a sua força. E também suas contradições.

Os caminhoneiros precisaram de apenas quatro dias para deixar o governo de joelhos e desencadear uma crise de abastecimento no maior país da América Latina. Mostraram que, como eles mesmos disseram, são o sangue que corre nas veias do país.

Embora estivessem separados por milhares de quilômetros de estradas, grupos de caminhoneiros autônomos se organizaram pelo WhatsApp, nos moldes da Primavera Árabe, e dentro de dez dias conseguiram derrubar o preço do diesel e dos impostos.

A população apoiou em peso a causa dos caminhoneiros: segundo pesquisa do Instituto Datafolha, 87% dos brasileiros foram favoráveis à paralisação, mesmo sofrendo o impacto do desabastecimento.

Assim, o Brasil assistiu a uma tempestade democrática perfeita: cidadãos fazendo uso do seu direito a greve e manifestação, com livre acesso a ferramentas de comunicação, gozando de apoio popular e vendo suas demandas serem atendidas pelo governo. Tudo isso sem repressão ou violência. Um país exemplar.

Até a coisa desandar. Caminhoneiros em todo o Brasil fizeram campanha nas redes sociais e estamparam faixas pedindo uma intervenção militar. Usaram seu direito democrático à livre opinião para pedir medidas antidemocráticas e, basicamente, a volta da ditadura.

Felizmente, os próprios militares desprezaram publicamente o apelo e reafirmaram sua lealdade à Constituição. Agora só falta os brasileiros entenderem que não haverá um salvador da pátria. A única forma de “botar ordem neste país” é participar do processo político antes, durante e depois das eleições. Votar com responsabilidade e fiscalizar os políticos.

O “lado sombrio da Força” também se manifestou em supermercados e postos de gasolina. A solidariedade demonstrada com os caminhoneiros contrastou com a mesquinharia de comerciantes que passaram a cobrar preços extorsivos por produtos escassos. Ou de consumidores que se acharam no direito de comprar mais do que precisavam só para garantir o seu, não se importando que os outros ficassem sem.

E o que dizer desta contradição: dos 87% da população que apoiaram a greve, 87% disseram não querer pagar pelos R$ 13,5 bilhões necessários para honrar o que foi prometido aos caminhoneiros. Ora, num país em crise, com um déficit orçamentário de mais de R$ 150 bilhões previsto para 2018, o dinheiro tem que sair de algum lugar.

O governo resolveu então cortar do lado mais fraco: no saneamento básico, no sistema de saúde, nas políticas de combate à violência contra a mulher, na demarcação de terras indígenas, na inovação. E quando foi anunciado que programas sociais pagariam parte da conta, a população deu de ombros.

As últimas semanas mostraram que a democracia brasileira tem muito mais força do que pensa para transformar o país, mas a sociedade precisa decidir se será parte da solução ou do problema.

Faltam apenas quatro meses para as eleições de outubro. Ainda dá tempo de começar a construir o melhor dos tempos.

(Francis França é jornalista da Agência DW)

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