Tendo sido este articulista dos primeiros a reconhecer e analisar a ascensão de Bolsonaro, beneficio-me da isenção necessária para discorrer sobre o que parecem ser seus primeiros erros, franqueza que não o agride, porque lhe é útil.
Em primeiro lugar, tendo atingido o nível que alcançou nas pesquisas, o capitão deveria resguardar-se um pouco em debates que constituem uma crônica anunciada da configuração de um cenário que acaba lhe sendo desfavorável.
Destaque-se, quanto às entrevistas em curso, que nelas têm ficado mal até os entrevistadores, pois a agressividade de quem pergunta tem atingido não apenas os candidatos, mas a própria Presidência da República, como instituição, e cuja respeitabilidade estende o seu manto sobre quem chegou a ter condições de se candidatar a ela, com chances de vitória ou não.
O jornalista Carlos Castello Branco, de quem tive a honra de ser um jovem amigo, produziu uma análise sobre a psicologia dos jornalistas, os quais, convivendo sempre com fatos e personalidades de alto nível, acabam se convencendo de que são mais importantes que os personagens, além de eles próprios, jornalistas, serem autores dos fatos.
O raciocínio e o artigo foram e são um conselho pela observância do comedimento e da modéstia.
Além de os eventos não terem transcorrido dentro de tais parâmetros, Bolsonaro fez afirmativas que a rigor deveriam ter partido de seus adversários.
Com a devida vênia, economia é fundamental. Não é necessário exigir que o candidato ou o Presidente sejam sumidades na matéria, mas é indispensável que tenham noções básicas, no conteúdo, e de caráter geral, na abrangência.
O capitão Bolsonaro, exatamente pela sua formação militar, há de distinguir com facilidade entre a estratégia e as táticas.
O presidente tem que ter uma estratégia econômica, por exemplo, uma opção pela economia solidária, como sustentada pelo indiano Muhammad Yunus, agraciado com o prêmio Nobel da Paz, que elimine não o capitalismo, mas o capitalismo selvagem praticado pelas instituições financeiras no Brasil, cujo povo merece práticas alternativas.
As táticas para implementação de tal sistema, ou algum outro, estas sim, podem ficar principalmente, mas não exclusivamente, com o ministro da Fazenda.
O Brasil não pode eleger Paulo Guedes sem saber que está votando nele com o pseudônimo de Jair Bolsonaro.
Da mesma forma, não se considera que ter participado de um movimento do chamado “baixo clero”, para eleger Severino Cavalcanti, seja galardão para um postulante presidencial.
Ademais, proclamar-se investido de missão outorgada por Deus, como se ele nada mais tivesse a fazer, ofende até aquelas religiões que o candidato pretendeu agradar, quando invoca Seu Nome em vão.
Por outro lado, até o anúncio hoje do general Mourão como candidato a vice-presidente, o candidato percorreu opções que implicam em desconsideração dos desdobramentos possíveis.
Um astronauta, dedicado a atividade que inspira respeito e admiração, certamente não é o tripulante indicado para o cockpit de um país na situação em que nos encontramos, considerando a possibilidade de sucessão, fundada nos precedentes de nossa história recente.
O Príncipe, ilustre, respeitável e apto para a disputa como todos os brasileiros, caracterizaria uma contradição insuperável, um membro da família real afastada pela República, presidindo-a, apesar da Proclamação de 15 de novembro de 1889 e do plebiscito que a confirmou em 1993, embora não fosse necessário.
E quanto ao general, este articulista, que tem por muitos militares amizade pessoal e por todos eles respeito que resulta do patriotismo das Forças Armadas, cumpre observar que o apoio popular ao candidato Bolsonaro decorreu e decorre de sua linha política, não do desejo que o País tenha expressado de estabelecer um governo próximo de ser militar.
Também aí o povo brasileiro tem o direito de saber se estaria elegendo o Capitão ou votando pelo que nas redes sociais se transformou em um suposto desejo de “intervenção militar já”.
Bolsonaro, curiosamente, é, dentre todos, aquele que mais elementos tem para o prejudicar.

