Às vezes eu prefiro as pessoas metidas a intelectuais do que os intelectuais de fato. Porque com os que se acham pelo menos a conversa é divertida. Os verdadeiros intelectuais são maçantes, eis a verdade incômoda.
Um apenas era divertidíssimo, vivaz, jamais chato. Na verdade, queria falar disso, mesmo: Ferreira Gullar. Cada conversa que tive com ele foi uma aula. Uma aula boa de vida e letras. A cada grande cena da política nacional e mundial, hoje, eu me pergunto: o que teria pensado Ferreira Gullar? É exatamente como em seu próprio poema Os Mortos.
Às vezes imagino que ele teria escrito um artigo. Conjecturas, porque ele era um homem lúcido, antes de ser intelectual. Intelectuais perversos é mais o que há, por isso prefiro a lucidez da mudança, do verdadeiro pensamento científico, da busca por evidências e de seu reconhecimento, o alijamento do sectarismo. Sectarismo também da Semana de Arte Moderna, da Piauí et caterva. Mas, e aí o motor de tudo, a rejeição do sectarismo político diante das evidências históricas.
Hoje vivemos um tempo em que construções e desconstruções históricas se fazem e refazem rapidamente. Foi o que disse outro dia sobre a narrativa da esquerda. Então, ao gosto do freguês a ideologia mais confortável. Ou a que o exima de se sentir culpado pela desigualdade no mundo. Ou uma que o faça ganhar muito, mas porcamente.
Ferreira Gullar, entretanto, desfez-se a si mesmo como mito na política e se refez como verdade incômoda, voz independente, sem nada ter que provar a ninguém. Foi um grande privilégio tê-lo conhecido.

