A eleição no BID entre o antiamericanismo e o respeito às normas

BID sede
Sede do Banco Interamericano de Desenvolvimento que escolha o novo presidente/Arquivo/Divulgação
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Texto de Marcelo Rech

Se o script for mantido, nos dias amanha (120 e domingo, teremos a eleição para escolher o novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em uma reunião virtual dos governadores da instituição. Em quase 60 anos, o BID teve apenas quatro presidentes que cumpriram mandatos de 15 anos.

Por tradição, desde a sua fundação, o cargo de presidente esteve reservado para um latino-americano, mas pela primeira vez, os EUA que detém 30% do poder de voto, apresentaram candidato ao posto: Mauricio Clayer Carone, cubano-americano e principal assessor da Casa Branca para temas de Hemisfério Ocidental.

A Argentina, por razões ideológicas, apresentou a candidatura de Gustavo Béliz, funcionário do BID por 15 anos e atualmente Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Argentina. Recentemente, surgiu a candidatura da ex-presidente da Costa Rica, Laura Chinchila, outra aposta da esquerda latino-americana e que perdeu a eleição para o comando da Organização dos Estados Americanos (OEA), no início do ano.

Neste momento, o candidato do presidente Donald Trump teria 17 dos 26 votos, mas ainda existe a possibilidade de a eleição ser postergada para 2021, e não apenas em razão das dificuldades decorrentes da pandemia de Covid-19. A iniciativa norte-americana é apoiada por Brasil, Colômbia, Uruguai e Peru.

Em 26 de agosto, cinco ex-presidentes latino-americanos e um ex-primeiro ministro espanhol, pediram o adiamento da eleição por conta da pretensão do presidente Donald Trump, de impor um candidato republicano linha-dura. Na carta, os ex-líderes políticos apontam a iniciativa de Trump como uma “nova agressão do governo dos EUA ao sistema multilateral baseado em regras definidas pelos países membros”. Os seis ex-chefes de Estado que firmaram a carta, também fizeram um “apelo ao respeito pelos acordos históricos e pela dignidade da América Latina”.

Em 17 de junho, uma nota conjunta dos ministérios das Relações Exteriores e da Economia, deixava claro o apoio do Brasil à decisão dos EUA de apresentar candidato à eleição para a presidência do BID.

De acordo com a nota, “o governo brasileiro recebeu positivamente o anúncio do firme comprometimento do governo dos EUA com o futuro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por meio da candidatura norte-americana à presidência da instituição. O Brasil defende uma nova gestão do BID condizente com esses valores e com o objetivo maior de promoção do desenvolvimento e da prosperidade na região”.

Quando analisamos o currículo de Claver-Carone, constatamos que possui as qualificações necessárias, afinal, além de assessor direto do presidente dos Estados Unidos, ele atuou no FMI, foi assessor do Tesouro e participou de uma iniciativa do governo Trump em finanças de desenvolvimento.

Como forma de reverter a repercussão negativa ao seu nome, ele também tem prometido que ficará apenas um único mandato de cinco anos e que estaria em uma posição melhor para obter apoio de Washington para que haja um aumento de capital do banco, especialmente no momento em que há uma grande demanda por financiamento devido à pandemia.

No entanto, pesa contra Claver-Carone, o seu viés ideológico marcante, uma característica que não o favorece para um cargo que deve ser conduzido de forma absolutamente diplomática. Por exemplo, junto ao Conselho de Segurança Nacional, ele foi o principal arquiteto da política de Trump em relação à Venezuela, que não produziu resultado algum em relação à ditadura de Nicolás Maduro. Teme-se também que leve para dentro do BID, a nova guerra comercial que travam EUA e China. Caso o BID se torne uma arma dos EUA em sua luta contra a China, isso não beneficiará os países latino-americanos, que têm a China como um de seus principais parceiros comerciais.

Não custa lembrar que, para o então presidente norte-americano, o ex-militar conservador Dwight Eisenhower, “para que esta instituição tenha sucesso, o papel de dirigi-la deve pertencer aos países latino-americanos”.

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