Texto de André César
Uma das mais tradicionais forças da centro-direita brasileira, o DEM vive dias de turbulência. O partido, que até o início do ano comandou simultaneamente as duas Casas do Congresso Nacional e tem representantes no primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), perdeu quadros importantes e busca retomar o protagonismo na cena política.
Afinal, para onde vai o DEM?
Apenas para relembrar, o PFL (depois DEM, a partir de 2007) foi criado em 1985 e teve seu auge durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, quando ocupou a vice-presidência com Marco Maciel. Nesse período, o partido chegou a ter mais de cem deputados federais e em suas fileiras brilhavam lideranças como os deputados Luís Eduardo Magalhães e Inocêncio Oliveira e os senadores Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen. Outros tempos.
Hoje, o DEM enfrenta uma espécie de crise de identidade. Ao aceitar que membros do partido integrassem o governo Bolsonaro, suas lideranças deixaram claro que concordavam com o projeto político do atual presidente. Essa posição minou a unidade partidária, e os resultados desse quadro começaram a aparecer.
O epicentro da briga se deu entre o presidente nacional da legenda, ACM Neto, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Esse último sentiu-se traído pelo comando partidário no processo de sucessão na Casa. Seu candidato, Baleia Rossi (MDB-SP), foi abandonado por boa parte dos deputados do DEM, com o aval de Magalhães, e passaram a apoiar Arthur Lira (PP/AL), candidato do Planalto. A derrota do emedebista fez eclodir a crise interna.
O resultado foi inevitável. Nomes importantes do partido, como o próprio Maia, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e o vice-governador paulista Rodrigo Garcia deixaram a legenda. Com eles, diversos deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores. O DEM sofreu uma perda considerável.
Importante notar aqui que, ao se aproximar do governo Bolsonaro, o DEM, sem consistência programática, perdeu identidade. Aos olhos do eleitor médio, o partido parece um satélite do PP – referência do Centrão e com uma clara agenda de direita, bem ao gosto dos apoiadores de Bolsonaro.
Para virar o jogo, cabe à cúpula do DEM estabelecer um programa de revitalização do partido, com novas ideias e propostas que atraiam o eleitor. Isso tem de ser feito rapidamente, pois as eleições se aproximam. Do contrário, a legenda se perderá definitivamente no cipoal partidário brasileiro – apenas mais um, sem relevância alguma.


