Texto de André César
Não poderia ser mais inoportuna a anunciada disposição do governo federal em sediar a Copa América de futebol. O evento já era objeto de polêmica há meses e, agora, ganhou o acréscimo do tempero brasileiro.
Aos fatos. Mesmo com a pandemia assolando fortemente os países do continente, a Conmebol decidiu manter a realização da tradicional, e já não tão brilhante, competição. A Colômbia, originalmente o país sede, desistiu após a eclosão de protestos políticos. A Argentina aceitou a missão, mas a explosão de casos de Covid-19 abortaram o projeto. Agora, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) resolveu entrar no jogo. A polêmica está armada.
Não faltam argumentos contra a realização do campeonato no Brasil de junho de 2021. Em primeiro lugar, em meio a uma grave crise sanitária, econômica e social, o campeonato está longe de ser prioritário. Até mesmo aliados do governo ficaram ressabiados com a decisão de Brasília.
Como se sabe, o país está na iminência de enfrentar uma terceira onda da pandemia – terceira onda que, segundo os especialistas, pode ser pior que as anteriores. A Copa América apenas pioraria o (dramático) quadro.
Além disso, não há tempo hábil para uma preparação minimamente qualificada para o evento. Sem falar na questão sanitária, outros elementos entram no debate, como a segurança pública e a disponibilidade de recursos para a realização da Copa América. Tempo e dinheiro escassos.
O presidente da República não está sozinho no equívoco, pois a oposição também escorregou na casca de banana do campeonato. A possível convocação do presidente da CBF, Carlos Caboclo, para prestar depoimento na CPI da Covid, sugestão do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), tira o foco das investigações ora em curso. A eventual presença do cartola nada acrescentará ao colegiado e tumultuará ainda mais o ambiente político. Confusão favorável apenas ao governo.
Importante lembrar que um dos estopins das manifestações de junho de 2013 foi a Copa do Mundo de futebol, que seria realizada no ano seguinte no Brasil. O “não vai ter copa” foi um dos bordões do período, e os eventos daquele dramático mês, de certo modo, desaguaram na “era Bolsonaro”. Ironia da história.
O rápido “sim” do titular do Planalto à Conmebol contrasta com a demora do governo em responder ao laboratório Pfizer no processo de aquisição de vacinas contra a Covid-19. Esse fato certamente perseguirá Bolsonaro e será utilizado por seus adversários na campanha eleitoral do próximo ano.
Enfim, o estrago está feito, ocorra ou não a Copa América no Brasil. A condução da questão pelas autoridades deixou ainda mais evidente o amadorismo do governo federal. Gol contra do Planalto.


